Estrogonofe de Chocolate de Natal da Greice

Ingredientes

2 latas de leite condensado

8 colheres (sopa) de chocolate em pó, no mínimo 50% puro

2 claras em neve

2 latas de creme de leite sem soro

Raspas de chocolate (mais ou menos 200 g), metade ao leite, metade meio amargo.

Nozes picadas (1 xícara de chá)

Uvas passas escuras (1 xícara de chá)

Modo de Preparo

  1. Leve ao fogo o leite condensado com o achocolatado e cozinhe até o ponto de brigadeiro (por cerca de 15 min).Deixe esfriar.
  2. Quando o brigadeiro estiver frio, misture as claras com o creme de leite. Junte as raspas de chocolate, as nozes e as uvas passas.
  3. Decore com raspas de chocolate, cerejas e folhas de hortelã.

Mistura as claras em neve com o creme de leite, e depois o brigadeiro frio.

Se deixar as uvas passas de molho no rum (com água) ou alguma outra bebida a gosto, fica bom tb.

Lygia Fagundes Telles

Por  BKO brunalacuna  @brunalacuna.

A partir da thread do twitter

Leia no twitter

Vocês pediram, eu faço: segue abaixo fio sobre a grande dama da literatura brasileira

Senhoras & senhoras, LYGIA FAGUNDES TELLES, que no próximo 19 de abril faz 96 anos, um dos maiores escritores brasileiros vivos

Em 19 de abril de 1923, na rua Barão de Tatuí, centro de São Paulo, Lygia de Azevedo Fagundes, quarta filha de Durval e Maria do Rosário. Brincando com o local do nascimento, seu pai gostava de chama-la de “Baronesa de Tatuí”.

Na foto, Lygia aos dois anos e os pais.

Na infância, Lygia costumava ouvir histórias de crianças vizinhas e pajens empregados pelos pais. Em 1931, já alfabetizada, começa a escrever, nas páginas finais de seus cadernos, as suas próprias histórias, que irá contar em casa.

O pai jogador a levava a casa de jogos para “dar sorte”. Ela compara o jogo à literatura ao relembrar o episódio em entrevistas: “tudo isso é um jogo, não é? Se este livro não der certo, não vou arrancar os cabelos. O outro dará. Lembro do meu pai: amanhã a gente ganha. É o jogo”

Em 1938, aos 15 anos, publica o primeiro livro, “Porão e sobrado”, em edição paga com a mesada que ganhava do pai. Na capa, assina como Lygia Fagundes. Tanto esse livro como o seguinte, “Praia viva”, de 1944, são considerados mortos pela escritora, e não têm mais exemplares.

Em 1940, ingressa na Escola Superior de Educação Física. Em 1941, inicia o curso de Direito da USP. Diz: “Sabia que nunca poderia viver só de literatura. Então precisava de profissões que me rendessem o bastante para viver […] sem depender de ninguém – inclusive de marido.”

Começou a entrar no círculo literário muito cedo, chegando a ter contato com escritores influentes como Mário de Andrade e Cecília Meireles (foto, 1945). Ela conta sobre seu encontro marcante com Mário no relato “Durante aquele estranho chá”.

No livro “Durante aquele estranho chá”, Lygia relata as tantas amizades que nutriu com personalidades importantes, como Simone de Beauvoir e Sartre. Ela é uma das pessoas mais bem relacionadas da literatura do século XX, nos próximos tweets vou falar um pouco das suas amizades.

Uma das melhores amigas de Lygia foi a também escritora Hilda Hilst (1930-2004). As duas se conheceram devido à Faculdade de Direito e foram amigas até a morte de Hilda. O afeto entre elas era tão profundo que Hilda dizia querer morrer de mãos dadas com Lygia.

(amo essas fotos)

Na foto, Lygia com Clarice Lispector e o poeta uruguaio Antonio di Benedetti. As duas foram amigas íntimas. No lançamento de “O Seminário dos Ratos” no Rio (1977), poucos meses antes de morrer, Clarice entrevista Lygia e a descreve como “um dos maiores escritores brasileiros”.

 Lygia e o grande escritor argentino Jorge Luis Borges também foram grandes amigos, trocando textos e sugestões de leitura. Na foto, os dois na capital paulista em 1970.

(Cc @VanaAlemoa)

Drummond também foi um de seus grandes amigos, ela o considerava um dos poetas maiores que já tivemos no Brasil, e ele dizia que ela era um dos maiores contistas.

Na primeira foto, os dois em 1958. Na segunda, desenho que Drummond fez de Lygia, onde ele assina “Carlos”.

Manuel Bandeira e Lygia, além de muito amigos, ambos são de 19 de abril. Sobre isso, Bandeira escreve em 1955:

Nós dois – Lygia e eu, seu mano,

nascemos no mesmo dia,

mas não, hélas! no mesmo ano.

Digo com melancolia.

No entanto ela é que está triste!

Já se viu? Não vi! Já viste?

Saramago, sobre ela: “mesmo que conseguisse determinar […] o minuto em que apareci a Lygia pela primeira vez ou ela me apareceu a mim, estou certo de que uma voz haveria de sussurrar-me de dentro: A tua memória enganou-se nas contas. Já a conheces. Desde sempre que a conheces”

Agora voltando à linha do tempo.

Muito politizada, participa, desde estudante, da vida política do país. Em 1945, participa de uma passeata contra o Estado Novo de Getúlio Vargas, ao lado dos colegas da Faculdade de Direito.

Casa-se, em 1950, com o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., que havia sido seu professor na Faculdade de Direito e era, na época, deputado federal pelo Partido de Representação Popular. Passa, a partir daí, a assinar Lygia Fagundes Telles.

Na foto, com o marido e o filho.

Em 1952, começa a escrever o romance “Ciranda de Pedra” na fazenda Santo Antônio, da família Silva Telles, que sediou várias reuniões modernistas na década de 20, contando com a presença de Tarsila do Amaral, Mário e Oswald de Andrade, Anita Malfatti e outros.

Publica, em 1954, “Ciranda de Pedra”, considerado pelo crítico Antonio Candido o romance no qual a autora atinge a sua maturidade literária. É, até hoje, um de seus livros mais lembrados e analisados.

Em 1960, separa-se de Goffredo. Em 1963, começa a viver com o intelectual Paulo Emílio Salles Gomes e inicia a escrita de “As Meninas”, romance inspirado no momento político do Brasil, tematizando as atrocidades do regime militar.

Em 1970, lança os contos “Antes do Baile Verde”, que recebe, na França, o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros. Na foto, a primeira edição do livro.

Em 1973, lança “As Meninas”, que passa pela censura pois foi julgado como “livro de mulherzinha” pelo censor, que não terminou de lê-lo (HAHAH). O livro ganha todos os prêmios literários importantes do país: Coelho Neto (ABL), Jabuti (Câmara Brasileira do Livro) e o da APCA.

Extremamente contrária ao regime militar, em 1976 integrou uma comissão de escritores que foi a Brasília entregar ao Ministro da Justiça o famoso “Manifesto dos Mil”, veemente declaração contra a censura e que foi assinada pelos mais representativos intelectuais do Brasil.

Após a morte de Paulo Emílio (com ela na foto) em 1977, Lygia assume a presidência da Cinemateca Brasileira, que o marido ajudara a fundar. Ela permanece na entidade até meados dos anos 80.

A Rede Globo, em 1981, exibe uma adaptação de “Ciranda de Pedra”, na qual Lucélia Santos faz o papel de Virgínia. Em 2008, faz outra versão (foto). Outras adaptações de sua obra: “Era uma vez Valdete” (dentro da série Retratos de Mulher, de 1993) e o filme “As Meninas” (1996)

Em 1982, é eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras. Em 1985, é eleita para ocupar a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras (foto), na vaga deixada por Pedro Calmon e cujo patrono é o poeta Gregório de Mattos.

Em 1994, representa o Brasil na Feira do Livro de Frankfurt. Na foto, ela na feira ao lado de Caio Fernando Abreu, grande escritor brasileiro que faleceu um ano depois, por decorrência do vírus HIV.

Lygia continuaria a publicar contos e romances, sendo continuamente premiada. A consagração maior vem em 2005: Prêmio Camões, maior honraria da literatura em língua portuguesa.

Na foto não dá pra ver bem, mas ali atrás é o Lula, que endossou a vertente humanista da escritora.

Em 2016, chegou a ser cotada para ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Falei um pouco disso aqui: https://homoliteratus.com/quais-as-chances-de-lygia-fagundes-telles/

Quais as chances de Lygia Fagundes Telles trazer o Nobel para o Brasil?

Lygia Fagundes Telles, escritora indicada ao Prêmio Nobel de Literatura, carrega o nome do Brasil e de outras duas minorias ignoradas pelas homenagens de alto escalão

https://homoliteratus.com/quais-as-chances-de-lygia-fagundes-telles/


No ano passado, saiu pela Companhia das Letras a reunião completa de seus contos. Recomendo veementemente a leitura de todos, sobretudo das obras-primas “Antes do pôr-do-sol”, “Senhor Diretor” (meu preferido, o analisei num ensaio), “Antes do Baile Verde”, e “A caçada”.

Por fim, queria fechar com a belíssima resposta dela à entrevista do @IMS, toda vez que leio em voz alta pras minhas turmas, choro.

Essa certeza de que posso servir ao próximo, essa esperança, não vai desaparecer enquanto eu for viva. No fundo, a literatura é uma forma de amor.

A maioria das informações estão no Cadernos de Literatura Brasileira: Lygia Fagundes Telles (IMS, 1998).

Quem curtiu o fio me segue aqui que tô sempre postando essas coisas  #LeiaMulheres #LeiaLygia


Aqui, todos os fios sobre literatura que já fiz: https://twitter.com/brunalacuna/status/1095789776425365516

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No século 21, somos todos migrantes

ILUSTRAÇÃO DE ANA JUAN

Os seres humanos estão em movimento através do tempo, bem como da geografia. Por que devemos estar divididos, o migrante versus o nativo?

POR MOHSIN HAMID

10 MINUTOS DE LEITURA

Este artigo aparece na edição de agosto de 2019 da revista National Geographic .

Todos nós somos descendentes de migrantes. Nossa espécie, Homo sapiens, não evoluiu em Lahore, onde escrevo estas palavras. Também não evoluímos em Xangai, Topeka, Buenos Aires, Cairo ou Oslo, onde você talvez os esteja lendo.

Mesmo que você viva hoje no Vale do Rift, na África, continente mãe de todos nós , no local dos primeiros restos descobertos de nossa espécie, seus ancestrais também se mudaram – eles partiram, mudaram e se misturaram antes de retornar ao lugar onde você mora agora, assim como deixei Lahore, vivi por décadas na América do Norte e na Europa, e voltei a residir na casa onde meus avós e pais moraram, a casa onde passei grande parte da minha infância, aparentemente indígena, mas totalmente alterada e refeita por minhas viagens.

Nenhum de nós é natural do lugar a que chamamos de lar. E nenhum de nós é nativo deste momento. Não somos nativos do instante, já ido, quando esta frase começou a ser escrita, nem do instante, também ido, quando começou a ser lida, nem mesmo deste momento, agora, em que entramos pela primeira vez e que se esvai, escapou, está irrevogavelmente perdido, exceto da memória.

COISAS QUE ELES CARREGAVAM
As recentes ondas de migração inspiraram muitos projetos de arte e fotografia. Tom Kiefer fez imagens de jarros de água (mostrado aqui) e outros itens que os migrantes deixaram para trás na fronteira dos EUA com o México. Para refletir a “esperança de uma vida melhor” dos migrantes, Kiefer chama o projeto fotográfico de “El Sueño Americano” – o sonho americano.FOTOGRAFIA DE TOM KIEFER/REDUX
PERTENCES DE MIGRANTES CONFISCADOS PELO USCBP

Ser humano é migrar para a frente no tempo, os segundos como ilhas, onde chegamos, náufragos, e de onde somos arrastados pela maré, chegando de novo e de novo, em um novo instante, a uma nova ilha, que temos, como sempre, nunca antes experimentado. Ao longo de uma vida essas migrações pelos segundos se acumulam, se transformam em horas, meses, décadas. Tornamo-nos refugiados de nossas infâncias, das escolas, dos amigos, dos brinquedos, dos pais que compunham nossos mundos, todos desaparecidos, substituídos por novos edifícios, por telefonemas, álbuns de fotos e reminiscências. Saímos para nossas ruas olhando para as altas figuras dos adultos, saímos um pouco mais tarde e atraímos os olhares dos outros com nossa juventude, e mais tarde ainda com nossos próprios filhos ou com os de nossos amigos – e então mais uma vez, aparentemente invisível, já não tem muito interesse,

Todos nós experimentamos o drama constante do novo e a tristeza constante da perda do que deixamos para trás. É uma tristeza universal e tão potente que procuramos negá-la, raramente reconhecendo-a em nós mesmos, muito menos nos outros. Somos encorajados pela sociedade a focar apenas no novo, na aquisição, ao invés da perda que é o outro fio que une e une nossa espécie.

Movemo-nos quando é intolerável ficar onde estamos. Nós nos movemos por causa do estresse ambiental e dos perigos físicos e da mesquinhez de nossos vizinhos – e para ser quem desejamos ser, para buscar o que desejamos buscar.

Nós nos movemos através do tempo, através do mundo temporal, porque somos compelidos a isso. Nós nos movemos pelo espaço, pelo mundo físico, aparentemente porque escolhemos, mas nessas escolhas também existem compulsões. Movemo-nos quando é intolerável ficar onde estamos: quando não podemos demorar mais um minuto, sozinhos em nosso quarto abafado, e precisamos sair para brincar; quando não podemos demorar mais um momento, famintos em nossa fazenda ressecada, e devemos ir a outro lugar em busca de comida. Nós nos movemos por causa do estresse ambiental e dos perigos físicos e da mesquinhez de nossos vizinhos – e para ser quem desejamos ser, para buscar o que desejamos buscar.

A nossa espécie é migratória. Os seres humanos sempre se moveram . Nossos ancestrais agiram, e não linearmente, como um exército avançando para fora da África em uma série de investidas ousadas, mas sinuosas, às vezes em uma direção, depois em outra, levados por correntes externas e internas. Nossos contemporâneos estão se mudando – sobretudo do campo para as cidades da Ásia e da África. E nossos descendentes também se mudarão. Eles se moverão à medida que o clima mudar , à medida que o nível do mar subir, à medida que as guerras forem travadas, à medida que um modo de atividade econômica morrer e dar lugar a outro.

O poder de nossa tecnologia, seu impacto em nosso planeta, está crescendo. Conseqüentemente, o ritmo da mudança está se acelerando, dando origem a novos estresses, e nossa espécie ágil usará o movimento como parte de sua resposta a esses estresses, como fizeram nossas bisavós e bisavós, conforme fomos projetados para fazer.

E, no entanto, dizem-nos que tal movimento não tem precedentes, que representa uma crise, uma inundação, um desastre. Dizem-nos que existem dois tipos de humanos, nativos e migrantes, e que estes devem lutar pela supremacia.

Dizem-nos que não só o movimento através das geografias pode ser interrompido, mas também o movimento através do tempo, que podemos voltar ao passado, a um passado melhor.

Dizem-nos que não apenas o movimento através das geografias pode ser interrompido, mas também o movimento através do tempo, que podemos retornar ao passado, a um passado melhor, quando nosso país, nossa raça, nossa religião era realmente grande. Tudo o que devemos aceitar é a divisão. A divisão da humanidade em nativos e migrantes. Uma visão de um mundo de muros e barreiras, e de soldados, armas e vigilância necessários para reforçar essas barreiras. Um mundo onde a privacidade morre, e a dignidade e a igualdade com ela, e onde os humanos devem fingir estar estáticos, imóveis, ancorados na terra em que estão atualmente e em um tempo como o tempo de sua infância — ou a infância de seus ancestrais — um tempo imaginário, em que ficar parado é uma possibilidade apenas imaginária.

Tais são os sonhos de uma espécie vencida pela nostalgia, em guerra consigo mesma, com a sua natureza migratória e com a natureza da sua relação com o tempo, gritando em negação do constante movimento que é a vida humana.

Talvez pensar em todos nós como migrantes nos ofereça uma saída para essa distopia iminente. Se somos todos migrantes, então possivelmente existe um parentesco entre o sofrimento da mulher que nunca morou em outra cidade e ainda se sente estrangeira em sua própria rua e o sofrimento do homem que deixou sua cidade e talvez nunca mais a veja de novo. Talvez a transitoriedade seja nossa inimiga comum, não no sentido de que a passagem do tempo possa ser derrotada, mas sim no sentido de que todos sofremos com as perdas que o tempo inflige.

Um maior grau de compaixão por nós mesmos pode se tornar possível e, a partir disso, um maior grau de compaixão pelos outros. Podemos reunir mais coragem enquanto nadamos no tempo, em vez de ceder ao medo. Podemos coletivamente ser corajosos o suficiente para reconhecer que nossos finais individuais não são o fim de tudo e que a beleza e a esperança permanecem possíveis mesmo depois de partirmos.

Aceitar nossa realidade como espécie migratória não será fácil. Nova arte, novas histórias e novas formas de ser serão necessárias. Mas o potencial é grande. Um mundo melhor é possível, um mundo mais justo e inclusivo, melhor para nós e para nossos netos, com melhor alimentação e melhor música e menos violência também.

A cidade mais próxima de você era, há dois séculos, quase inimaginavelmente diferente daquela cidade de hoje. Dois séculos no futuro, é provável que seja pelo menos tão diferente novamente. Poucos cidadãos de quase qualquer cidade agora prefeririam viver na mesma cidade dois séculos atrás. Devemos ter confiança para imaginar que o mesmo acontecerá com os habitantes das cidades do mundo daqui a dois séculos.

Uma espécie de migrantes finalmente confortável em ser uma espécie de migrantes. Esse, para mim, é um destino que vale a pena passear. É o desafio central e a oportunidade que todo migrante nos oferece: ver nele, nela, a realidade de nós mesmos.

Original: https://www.nationalgeographic.com/magazine/issue/august-2019

Às minhas filhas, com amor…

CAPÍTULO 9

792x1200UMA QUINTA-FEIRA COMO AS OUTRAS
1995

Nunca esquecerei o dia em que os taliban vieram para Cabul.

Era uma quinta-feira de Setembro. Não tinha ido à universidade naquele dia e estava em casa a estudar. A minha irmã precisava de comprar pão e eu precisava de uns sapatos, por isso à tarde fomos ao bazar.

A minha irmã Shahjan e eu fomos juntas ao mercado. Eu tinha vestido uma das minhas túnicas e lenços preferidos, ambos garridos. A minha irmã contou-me uma anedota e eu ri-me. O homem da loja sorriu-nos e disse: «As meninas não vão poder vir para aqui assim vestidas amanhã. Os taliban chegam amanhã e este é o último dia em que podem divertir-se no mercado, por isso tratem de o aproveitar.»

Ele disse isto a rir-se, com os olhos verdes a sorrir e as rugas à volta deles a vincarem-se. Pensei que ele estava a brincar mas fiquei incomodada. Olhei-o nos olhos, zangada, e disse-lhe que era um desejo que podia levar com ele para a sepultura porque nunca iria realizar-se.

Eu tinha apenas uma noção vaga de quem os taliban eram. Estudantes de religião que se tinham transformado num movimento político, mas ainda não sabíamos o que defendiam. Durante os anos em que lutámos contra os Russos, milhares de combatentes árabes, paquistaneses e chechenos vieram juntar-se aos mujahedin afegãos. Recebiam apoio económico de outros países, como os Estados Unidos da América, o Paquistão ou a Arábia Saudita, para ajudar na luta contra os Soviéticos. Cada um destes países tinha os seus interesses ocultos e as suas razões políticas para nos ajudar. Ainda que esta ajuda inicial tenha sido bem-vinda, estes combatentes mujahedin estrangeiros trouxeram com eles uma visão fundamentalista do Islão que não pertencia ao Afeganistão. Chamava-se wahhabismo. Os wahhabitas eram originários da Arábia Saudita e constituem um ramo particularmente conservador do islamismo sunita. As madaris (escolas religiosas) das regiões fronteiriças entre o Paquistão e o Afeganistão promoviam este tipo de islão junto dos jovens afegãos do sexo masculino, muitos deles pouco mais que crianças e também muitos refugiados, vulneráveis e traumatizados.

Mas naquele tempo havia muita desinformação. Algumas pessoas em Cabul pensavam que eles eram anjos, mas outras até pensavam que eram os comunistas que regressavam com novas roupagens. Mas, fossem quem fossem afinal, eu não podia nem ia acreditar que eles, ou outros, tivessem derrotado os mujahedin. Os mujahedin tinham derrubado o Exército Vermelho e todo o seu poder — como poderia um punhado de estudantes derrotar aqueles homens? A ideia de eles amanhã estarem na loja onde eu me encontrava naquele preciso momento era simplesmente ridícula.

Eu, nesta altura, não via muitas diferenças entre os mujahedin e os taliban. Enquanto criança tivera muito medo dos mujahedin. Agora, enquanto estudante universitária, tinha medo dos taliban. No meu entender não passavam todos de homens com armas. Homens que queriam lutar em vez de falar. Eu estava mais do que farta de todos eles.

Mas, naquela noite, ouvimos a notícia chocante na estação de rádio da BBC. Ficámos a noite inteira a ouvir, incrédulos com o que diziam. A BBC informou que os homens de Ahmad Shah Massoud se tinham retirado de Cabul e voltado ao seu reduto no vale do Panjshir. Eu ainda não conseguia acreditar que se tratava de uma derrota. A retirada táctica não era uma opção militar rara em Massoud. Pensei realmente que ele retomaria a luta antes do pequeno-almoço, para restabelecer a paz e apoiar o governo. A maioria das pessoas em Cabul pensava a mesma coisa.

De repente a porta abriu-se e o meu irmão Mirshakay, que era comissário-geral da polícia, entrou com uma expressão aterrorizada. Falava muito depressa e dizia que não tinha muito tempo. Pediu à mulher que lhe preparasse a mala. Estava de partida, tal como muitos altos funcionários do governo, para se reunir a Massoud, no Panjshir.

Eu tinha imensas perguntas sem resposta sobre o futuro. Comecei a discutir com ele. A mulher dele começou a chorar. Sussurrou-nos um «chiu» e disse-nos para ficarmos caladas, não fosse alguém ouvir-nos.

O Mirshakay tinha duas mulheres e ficou decidido que uma ficaria comigo no apartamento em Cabul e a outra seria levada nessa mesma noite pela família dela para o Paquistão, onde o meu irmão tinha uma casa, na cidade de Lahore.

Aconteceu tudo tão depressa que mal conseguíamos acreditar. A minha irmã atirou uma panela de água ao chão logo que ele saiu pela porta. Faz parte da nossa cultura — diz-se que se a água correr na direcção da pessoa ela voltará em breve.

Depois de o Mirshakay sair, nós, as mulheres, acotovelámo-nos à volta do rádio. Os últimos relatos comunicavam que o presidente Rabbani e os seus ministros também tinham fugido. Tinham ido de avião para o Panjshir e de lá para a província natal de Rabbani, o Badakhshan.

Depois comunicaram que o ex-presidente Najibullah, o homem que fora considerado um fantoche de Moscovo e simpatizante comunista, tinha sido assassinado. Najibullah estava sob a protecção das Nações Unidas. Mas, quando o governo mujahedin ruiu, Ahmad Shah Massoud fora ao seu encontro, oferecendo-se para o levar com ele para o vale do Panjshir. Contudo, Najibullah confiava tanto nos mujahedin como nos taliban, e receou que se tratasse de uma armadilha para o matarem. Talvez fosse compreensível, na posição em que estava, mas não confiar em Massoud naquele momento crítico viria a revelar-se um erro fatal pois, horas depois da retirada de Massoud, Najibullah estava morto.

Às oito horas da noite havia jactos no céu. A minha família metia-se comigo, dizendo que até no meio de uma guerra eu tinha o nariz enfiado num livro. Eu não tinha apreço especial pelo governo de Rabbani, mas pelo menos era um governo. Pelo menos tínhamos algum tipo de sistema. E agora isto, funcionários como o meu irmão a abandonar os postos e a fugir. Fiquei furiosa por os nossos líderes estarem a desistir tão facilmente.

Mal dormimos durante o resto da noite. O país desintegrava-se mais uma vez à nossa volta enquanto nós ouvíamos na rádio. Às seis da manhã espreitei pela janela e vi pessoas com pequenos chapéus brancos de oração. De repente toda a gente os usava. Fechei rapidamente a cortina e voltei para os meus estudos. Ao correr o tecido queria manter este mundo novo do lado de fora, esta nova encarnação de Cabul que eu não compreendia.

E depois começaram os rumores.

Era sexta-feira, dia de oração. Começaram a surgir relatos de que eles agrediam pessoas para as obrigar a ir à mesquita. Chegados a isto, não tivemos dúvida de que não eram comunistas nem anjos da salvação; quem eram eles então?

Nunca na história do Afeganistão passámos por algo assim. Ficou claro que esta força não era familiar nem controlada por afegãos. Não podia, não a comportar-se daquela maneira.

De seguida mataram o ex-presidente Najibullah, tirando-o à força do edifício das Nações Unidas, onde estava refugiado. Se tivesse fugido com Massoud talvez ainda estivesse vivo, mas a decisão de ficar sob a protecção das Nações Unidas custou-lhe a vida. Os taliban invadiram as instalações das Nações Unidas, arrastaram-no para o exterior e executaram-no. Penduraram o corpo dele e o do irmão mais novo numa rotunda movimentada para todos verem. Durante três dias os corpos amareleceram e incharam lentamente e ficaram ali suspensos como um aviso. As pessoas passavam num silêncio assustado. Ninguém se atreveu a tirar de lá os corpos.

Depois saquearam o museu, destruindo milhares de artefactos que revelavam a história da nossa terra — estatuetas budistas antigas, jóias kundan, pratos do tempo de Alexandre, o Grande, artefactos do tempo dos primeiros reis islâmicos. Em nome de Deus estes vândalos destruíram a nossa história. O mundo apercebeu-se deste vandalismo cultural quando rebentaram com os Budas de Bamiyan. Estas estátuas de pedra antigas eram vistas como uma das maravilhas do mundo. Tinham sido erigidas durante o reinado de um dos primeiros reis islâmicos do Afeganistão, o rei Kushilla. Este homem iluminado interessara-se por outras religiões e quisera saber mais sobre elas, apesar de ser muçulmano. Acreditava na cultura e na arte, e financiou pessoalmente a construção de uma grande escola de budismo e de um mosteiro, a ser construído em Bamiyan. Os Budas gigantes não eram apenas peças importantes da história cultural afegã e sinal do nosso passado iluminado e tolerante; eram também fonte de subsistência dos hazaras que vivem em Bamiyan e dependem do turismo. Os Budas há muito que atraíam visitantes de todo o mundo, assim como de outras partes do Afeganistão. Desenvolvera-se em Bamiyan uma actividade turística robusta devido às estátuas. Numa província que noutras circunstâncias seria pobre, esse turismo representava um rendimento essencial para aquelas pessoas.

Em imagens chocantes na televisão difundidas pelo mundo inteiro, os taliban rebentaram as estátuas com lança-granadas e artilharia pesada até estes monumentos imponentes sucumbirem tragicamente em pedaços.

Depois começaram a destruir-nos a mente. Queimaram escolas e universidades. Queimaram livros e baniram a literatura.

Nesse fim-de-semana eu tinha um exame marcado na universidade para o qual estudara com muito afinco. Começara recentemente o curso de Medicina e estava a adorar. Mas disseram-me que não me desse ao trabalho de ir, uma vez que a faculdade de Medicina tinha fecha do. As mulheres já não estavam autorizadas a serem médicas, muito menos a estudar Medicina na universidade.

De um momento para o outro a vida de Cabul, as coisas que as pessoas tinham como certas, desapareceram! Até mesmo durante a guerra tínhamos possibilidade de fazer as pequenas coisas, prazenteiras — como encontrarmo-nos com amigas para um chá no bazar, ou ouvir música na rádio — e as grandes, como as festas de casamento. Mas com os taliban tudo isto deixou de ser possível de um dia para o outro. A proibição dos casamentos foi particularmente difícil para as pessoas porque os casamentos são um acontecimento muito importante. Na nossa cultura, como na maior parte das culturas do mundo, o dia do casamento é um rito de passagem, e um rito que envolve a família inteira.

Os casamentos afegãos são tradicionalmente muito grandes, com um número de convidados que vai dos quinhentos aos cinco mil.

Ter um salão de casamentos ou um hotel pode ser um negócio muito lucrativo. Os melhores podem pedir preços altos e não é incomum as famílias gastarem vinte ou trinta mil dólares para pagar a conta adiantada.

Mas, no seu primeiro fim-de-semana no poder, os taliban proibiram os casamentos em espaços públicos. Centenas de casais tiveram de cancelar o casamento. Não foi apenas a perda do dia, o dia com que todas as raparigas no mundo inteiro sonham, mas também do dinheiro, em famílias já com dificuldades devido aos problemas económicos decorrentes da guerra.

Os taliban ordenaram às pessoas que fizessem cerimónias privadas em casa, sem convidados, sem música e sem diversão. É interessante pensar em alguns dos noivos que se casaram naquele dia. Os seus aniversários de casamento serão uma espécie de comemoração de uma catástrofe, o início do domínio taliban. Não foi o casamento que esperavam, mas é algo que certamente recordarão até ao fim da vida.

Claro que muitas pessoas tentaram desafiar a proibição. Pais orgulhosos recusaram-se a deixar estas criaturas destruírem um dia tão importante para a família e tentaram prosseguir como planeado. Os donos de alguns hotéis ignoraram a nova regra e continuaram a fazer negócio como sempre. Mas os taliban andavam em carrinhas pela cidade com os seus turbantes negros. Traziam com eles armas e chicotes e, se ouviam música em alguma festa de casamento, invadiam-na. Os pretensos anjos da salvação tinham-se transformado em arautos da violência. Entravam de rompante nos salões de casamento, aos berros, e esmagavam microfones, arrancavam cassetes das câmaras de filmar e rasgavam fotografias. E agrediam as pessoas. Batiam nos noivos à frente das noivas e esmurravam avós idosos até eles caírem ao chão diante dos convidados assustados. Espancavam as pessoas até elas ficarem sem sentidos. Eu não parava de ouvir histórias destas, mas ainda não conseguia acreditar que fossem verdadeiras. Penso que estava numa fase de negação.

No dia seguinte a minha irmã foi ao mercado comprar legumes. Esta minha irmã vestia burqa por sistema, por isso usá-la não era problemático para ela. Mas voltou do mercado banhada em lágrimas. Contou que os tinha visto agredir todas as mulheres sem burqa, que usassem apenas um lenço. Eu ouvi em estado de choque. Ela descreveu a forma como bateram em mulheres que se vestiam exactamente como eu.

Soluçava ao contar-me o que aconteceu com um homem e uma mulher que empurravam uma bicicleta carregada de sacos de compras pela rua fora. A mulher nem sequer trazia calças de ganga ou saia. Envergava um shalwar kameez, tradicional na nossa cultura, e tinha o cabelo tapado com um lenço grande. O casal conversava quando os taliban se aproximaram por trás e atacaram a mulher. Três deles lançaram-se a ela, batendo-lhe com cabos eléctricos e dando-lhe pancadas na cabeça com tanta violência que ela caiu ao chão. Quando começaram a agredir o homem, este negou que ela era sua mulher. Para se salvar, incriminou a própria mulher.

Era tenebroso pensar que um afegão podia entregar a mulher tão facilmente. Na cultura afegã tradicional, os homens lutariam até à morte para proteger as suas mulheres e famílias; mas os taliban trouxeram com eles tanto medo, tanto mal, que perverteram alguns dos homens da nossa nação. Não todos, mas alguns seguramente. Homens que tinham sido bons, maridos benevolentes, e que, seja pelo medo que sentiam, seja por terem sido arrastados pela excitação de uma psicologia de multidões, começaram a acreditar nesta ideologia retorcida.

Na semana seguinte não fui a lado nenhum. Baniram a televisão. Apropriaram-se da estação de rádio estatal para fins de propaganda taliban. As apresentadoras, até aquelas mulheres velhotas e feias sem maquilhagem que os mujahedin preferiam, haviam sido erradicadas. A um apresentador famoso, que utilizou uma palavra errada ao anunciar a morte de um comandante taliban, bateram nas solas dos pés e deixaram-no dentro de um contentor durante três dias sem comida nem água. Com os nervos, trocou a palavra «trágica» pela palavra «feliz» ao descrever aquela morte. É um lapso compreensível quando se pensa que atrás dele, numa emissão em directo, estavam homens com chicotes. Quem não estaria nervoso?

Eu nem sequer conseguia ouvir a propaganda a que eles chamavam «notícias». Queria notícias a sério. Queria sentir-me ligada ao mundo exterior. Não ter acesso a elas fazia-me sentir presa. Os rumores, transmitidos de vizinho a vizinho, eram inevitáveis, porém, e cada história mais terrível do que a anterior.

Os confrontos fora de Cabul continuavam. A planície de Shomali, a área entre o bastião de Massoud no Panjshir e a cidade, tornou-se na nova frente de batalha. A maior parte das pessoas ainda esperava que as tropas de Massoud regressassem. Não conseguíamos acreditar que esta realidade taliban iria ser permanente. O único sítio onde podia encontrar-me com outras raparigas para falar era a varanda comum do prédio, quando limpava a casa. Da varanda conseguia ver as raparigas dos outros apartamentos. Raparigas jovens e belas a quem eram negados os seus direitos mais básicos e que não podiam respirar o ar fresco nem sentir o sol. Bastava estas raparigas ouvirem o som de vozes taliban para fugirem o mais depressa que conseguiam para dentro de casa.

Precisava de me ligar à minha mãe. Sentia umas saudades desmesuradas dela, mas estava grata por ela não ter de testemunhar a última aberração que reinava no seu país.

Queria visitar a campa dela mas ainda não conseguia resignar-me a vestir a burqa. Nem sequer tinha uma. Então pedi emprestado à minha irmã um hijab negro ao estilo árabe. Era como uma capa grande que também tapava completamente o rosto, por isso pensei que, usando-o, estaria em segurança. As ruas estavam desertas; o medo tornava o ar tão denso que quase se podia cortar à faca.

Poucos eram os homens que se atreviam a sair, e mulheres ainda menos. Aquelas que saíam envergavam burqas azuis, o novo uniforme das mulheres afegãs. Andavam apressadas e silenciosas, fazendo as compras o mais depressa possível, para voltarem à segurança do lar. Ninguém falava com ninguém. Os lojistas entregavam sacos sem dizer palavra, as mulheres pegavam-lhes sem erguer os olhos, sem estabelecer contacto visual se quer. De vez em quando passava uma carrinha taliban, com homens de olhos desdenhosos e ameaçadores que procuravam novas vítimas para espancar e com altifalantes de onde jorravam ensinamentos religiosos. Eu pensava que nesta altura já conhecia o medo em todas as suas formas e feitios, mas também este conseguia ser novidade. Frio, pegajoso e tingido de uma fúria glacial. Depois daquilo fiquei quase dois meses sem sair de casa.

Não sabíamos nada do meu irmão Mirshakay desde que os primeiros taliban assumiram o controlo. Como ele, muitos mujahedin e antigos funcionários do governo fugiram, levando com eles as suas famílias. A planície de Shomali e o vale do Panjshir — a província a nordeste de Cabul — eram palco de combates ferozes, ainda sob o controlo de Ahmad Shah Massoud. Mas os seus homens não eram os únicos a debandar. Outros — comunistas, professores da universidade, médicos, também fugiam. Pegavam naquilo que podiam — algumas roupas, jóias, mantimentos —, carregavam o carro e saíam da cidade. As pessoas deixavam para trás tudo aquilo por que tinham trabalhado. Pessoas que apenas semanas antes se congratulavam pela sua boa sorte, por as suas casas terem resistido intactas à guerra civil, agora trancavam os portões dessas mesmas casas ao sair, e afastavam-se sem olhar para trás.

Mas nem todos chegaram ao destino em segurança. Ouvíamos histórias de carros a serem atacados e saqueados. As poucas posses que as pessoas tinham eram-lhes levadas — colares de ouro tirados de pescoços de mulheres, brincos arrancados dos lóbulos. Os saqueadores eram criminosos que se aproveitavam do caos. E, à medida que as pessoas se aproximavam dos limites da cidade, em direcção à frente de combate — no outro lado haveria alguma segurança —, muitas eram mortas, com os carros atingidos por rockets ou balas perdidas.

Um romance e a luta pelos direitos dos transgêneros na Argentina

O Parque das Irmãs Magníficas” reflete as experiências da vida real de Camila Sosa Villada.


Por Graciela Mochkofsky

Ouvi falar pela primeira vez de “O Parque das Irmãs Magníficas”, romance da escritora argentina Camila Sosa Villada (a ser publicado em inglês como “Bad Girls” por Other Press, em maio), quando um amigo me disse que o livro o fez pensar em mim, porque se passa nos anos noventa, na cidade de Córdoba, onde passei minha adolescência e onde minha família ainda vive. O romance, uma obra de autoficção, é uma história de amadurecimento em primeira pessoa contada por Camila, que nasceu pobre e menino em uma cidade das colinas da província de Córdoba, e cujos pais a rejeitaram violentamente quando, como adolescente, ela começou a se vestir como uma menina. Aos dezoito anos, Camila se muda para a cidade para frequentar a Universidade Nacional pública (na Argentina, as universidades públicas são gratuitas e abertas a todos) e onde à noite, para se sustentar, torna-se trabalhadora do sexo. Sua história se desenrola quando ela encontra um grupo de travestis mais experientes (mais sobre esta palavra depois) que a ensinam e protegem, e com quem ela compartilha diariamente doses de crueldade, dor e humilhação, mas também de solidariedade e alegria.

O romance começa e termina no Parque Sarmiento, onde trabalham as travestis. Meus avós moravam perto do parque, e eu já fui muitas vezes ao zoológico e ao parque de diversões, mas nunca tinha ido lá à noite nem visto travestis esperando clientes junto à estátua de Dante. Estudei na mesma universidade que a Camila do romance, mas sua Córdoba é uma cidade marginal, noturna, de alma e corpo que sobrevivem ao desprezo dos vizinhos, aos espancamentos de clientes e à brutalidade policial.

A minha Córdoba é uma cidade suburbana, promissora, de classe média alta, de uma estudante obediente que tem o apoio de seus pais. Ainda assim, depois que terminei de ler a história de Camila, ela continuou crescendo em mim, suas imagens de Córdoba se misturando com minhas próprias lembranças de uma sociedade machista que derrubava qualquer um que tentasse escapar do controle dos homens. Um homem “bom”, diz o pai de Camila, “deve rezar todas as noites, formar uma família, arrumar um emprego. Você vai achar muito difícil encontrar um emprego com essa saia.

Como uma história de opressão de gênero, “O Parque das Irmãs Magníficas” soaria familiar em quase todos os lugares – particularmente, hoje em dia, nos Estados Unidos, enquanto o Texas busca punir famílias trans e outros estados liderados por republicanos estão restringindo o direito ao aborto. Mas Camila Sosa Villada não procura simpatia ideológica. Na verdade, a primeira mensagem desafiadora na tradução inglesa de seu livro é uma nota do autor dirigida não aos inimigos percebidos das pessoas trans, mas a seus aliados. Ela apresenta uma defesa combativa da palavra travesti, que literalmente significa travesti, mas não é traduzido no romance, em comparação com termos como “mulher trans”, “transexual” e “transgênero” que Sosa Villada considera “completamente estranhas para nós” – ou seja, para as travestis latino-americanas que viviam na pobreza e trabalhavam nas ruas. “Não uso o termo mulheres trans, não uso vocabulário cirúrgico, frio como um bisturi, porque a terminologia não reflete nossa experiência como travestis nessas regiões, desde os tempos indígenas até esse absurdo de civilização”, disse. ela escreve.

Organizações de direitos de trans e de gênero na Argentina, no entanto, costumam usar tanto os termos “transgênero” e “transexual”, como “travestis”. E, como me disse Mauro Cabral Grinspan, veterano ativista trans argentino e ex-diretor executivo da Ação Global pela Igualdade Trans (gate), uma organização internacional de advocacia, há muito tempo há um consenso de que esses termos evoluem e que cada pessoa tem o direito de escolher como se identificar. Mas “travesti” também foi usado como um insulto para se referir a mulheres trans profissionais do sexo, e é a experiência do grupo marginalizado por trás desse termo que importa para Sosa Villada. “Para eles, nos chamar de travestis é uma forma de nos insultar”, escreve ela na introdução. “Reclamo os apedrejamentos e cuspidas, reclamo o desprezo.” No início do romance, uma travesti mais velha e protetora encontra um bebê recém-nascido abandonado, escondido sob galhos espinhosos, chorando no parque, e decide levá-lo para a casa onde abriga outras travestis, para zelar por ele. Essa boa ação pretendida pode ser recompensada com prisão, espancamentos ou pior, por causa de quem elas são. “Ah, para realmente conhecer o medo”, diz o narrador, “você precisa ser uma travesti carregando um recém-nascido ensanguentado em uma bolsa”.

Na vida real, Camila Sosa Villada nasceu em La Falda, Córdoba, em 1982, e começou a se vestir como menina aos quinze anos. Seu pai lhe disse que, se continuasse a fazê-lo, ela não teria escolha a não ser se prostituir para viver, e que um dia ela acabaria morta em uma vala. Três anos depois, determinada a provar que ele estava errado, ela se mudou para a capital. Ela tentou conseguir um emprego, mas foi rejeitada toda vez que os gerentes de contratação viam o nome masculino em seu documento de identidade. Eventualmente, como seu pai havia previsto, ela se tornou uma profissional do sexo. Sofria as zombarias dos vizinhos, os espancamentos dos clientes e da polícia, e o medo; ela carregava uma lâmina de barbear para autodefesa.

Como meio de sobrevivência, Sosa Villada agarrou-se à escrita – ela escreveu um blog anônimo sobre sua vida – e frequentou a Universidade Nacional. Ela se formou em teatro e começou uma carreira como atriz de teatro, cinema e TV, ganhando seguidores cult na cena do teatro underground. A primeira peça que protagonizou, “Carnes Tolendas” (“Carnival Flesh”), também baseada em sua vida, e fundida com a poesia de Federico García Lorca, estreada em 2009 com ampla aclamação da crítica. Ela publicou poesia e outros trabalhos, mas foi “O Parque das Irmãs Magníficas”, publicado em 2019, que fez seu nome como escritora. Um best-seller nacional, foi traduzido para vários idiomas e ganhou vários prêmios internacionais, incluindo o prêmio Sor Juana Inés de la Cruz (concedido pela Feira Internacional do Livro de Guadalajara) para literatura em língua espanhola escrita por mulheres – a primeira vez que o prêmio foi dado a alguém que não nasceu mulher. No mesmo ano, ela publicou um segundo romance, “Tesis sobre una domesticación” (“Tese sobre uma domesticação”) sobre uma atriz trans que adota uma criança. Seu terceiro, “Soy una tonta por quererte ” (“Sou um tolo por te amar”), saiu este mês e já é um best-seller na Argentina.

Em sua nota na edição americana de “O Parque das Irmãs Magníficas”, Sosa Villada reconhece uma dívida com aqueles que vieram antes dela, escrevendo: “No cemitério onde se encontram tantas travestis anônimas, muitas das quais apenas permanecem na memória como apelido ou feito famoso, lá embaixo onde as raízes brilham fosforescentes, algo de sua existência ainda pulsa com vida.” A primeira travesti a ganhar aceitação na cultura mainstream foi Cris Miró, uma showgirl de Buenos Aires que se tornou uma celebridade nacional na revista e na televisão poucos anos antes de morrer de linfoma associado à aids, em 1999, aos 33 anos. Naquela época, as redes de TV também começaram a cobrir a perseguição policial às travestis nos bairros da luz vermelha de Buenos Aires, que vinha acontecendo há muitos anos, sob uma polêmica série de decretos datados do século XIX que, entre outras coisas, permitiam a prisão de pessoas vestidas em público “com roupas do sexo oposto.” (Os editais foram revogados em 1998.) A celebridade de Miró foi muitas vezes transformada em um show de horrores, com os entrevistadores fazendo perguntas como “Você se incomoda que as pessoas saibam que você é homem?” Em cena de “O Parque das Irmãs Magnificas”, as travestis estão prestes a abrir uma garrafa de champanhe para comemorar uma boa notícia, quando descobrem que Miró morreu. “Eu era apenas uma criança quando a vi pela primeira vez na TV, mas imediatamente soube que queria ser como ela”, lembra a narradora. Eles afundam na tristeza, um raro momento de triunfo arruinado pela tragédia. “Nossa Evita”, diz a narradora, se foi.

Em 1998, Flor de la V., que também começou sua carreira como showgirl, foi descoberta e se tornou uma grande figura da cultura pop, a primeira mulher trans a apresentar um programa de variedades diurno – em família. Notícias sobre sua vida, seu casamento e seus filhos eram publicadas regularmente em agências de celebridades. Agora com quarenta e sete anos, ela ainda é uma estrela de TV popular. Foi durante esses mesmos anos, e em parte graças a Miró e de la V., que uma mudança social começou a ocorrer. Eles ajudaram a “dar visibilidade a um corpo que foge da norma heteropatriarcal”, me disse Carlos Sanzol, biógrafo de Miró. Mas a verdadeira luta pelos direitos trans, disse ele, foi travada nas ruas por muitos que permanecem desconhecidos e outros que não são, como Lohana Berkins, talvez a mais importante ativista dos direitos trans da Argentina. Berkins foi a primeira pessoa trans a ocupar um cargo no governo, iniciando, Lei federal de 2012 que permite a qualquer pessoa obter uma carteira de identidade emitida pelo governo com o nome e o gênero com que se identifica sem ter que obter um diagnóstico psiquiátrico ou passar por cirurgia de afirmação de gênero (como é o caso em alguns países), e garante tratamentos cirúrgicos de transição. (Em 2013, Sosa Villada obteve um documento de identidade com o nome e sexo escolhidos.) Berkins morreu, de hepatite C, em fevereiro de 2016. Em junho passado, foi aprovada uma lei federal com seu nome, exigindo que pelo menos um por cento dos todos os empregos do governo sejam para pessoas trans. Outro projeto de lei para estabelecer reparações às pessoas trans prejudicadas pelo Estado (através dos antigos decretos policiais, por exemplo) foi apresentado no Congresso.

“A Argentina está na vanguarda da legislação progressista de direitos trans no mundo, porque os entende como o direito à identidade”, me disse Cabral Grinspan. Isso é resultado, disse ele, das conexões do movimento trans com o movimento de direitos humanos do país, que nasceu no final dos anos 70 da luta contra as atrocidades cometidas pela ditadura militar. Desde que a democracia foi restaurada, em 1983, esse movimento vem elaborando legislação, políticas e um léxico político. “A Argentina foi o primeiro país a identificar os direitos trans como direitos humanos”, acrescentou Cabral Grinspan.

A Argentina aprovou uma lei inovadora sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2010, o primeiro país a fazê-lo na América Latina e o segundo nas Américas – um ano antes do Estado de Nova York legalizar o casamento gay. (As uniões civis eram reconhecidas em Buenos Aires desde 2002.) É também o país que, no final do século XX, deu à luz Ni Una Menos, um movimento feminista de base que começou como uma campanha contra a violência de gênero, e se espalhou pela América Latina. Através de manifestações em massa, greves e uma forte mensagem contra o machismo, Ni Una Menos foi fundamental na aprovação de uma lei histórica que legalizou o aborto em dezembro de 2020 – em um país que ainda é fortemente católico e em um momento em que há um papa argentino que, como arcebispo de Buenos Aires, chamou aborto “um crime” e fez campanha contra a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo porque ameaçava “a sobrevivência da família”.

Essas vitórias não eliminaram a violência contra pessoas e mulheres trans. Nos primeiros seis meses de 2021, o Observatório Nacional de Crimes de Ódio contra LGBT+, um escritório do governo da cidade de Buenos Aires, contou cinquenta e três casos de crimes de ódio contra pessoas com base em sua identidade sexual ou de gênero: setenta e seis por cento deles foram contra as mulheres trans. (De acordo com um relatório de 2016 de uma coalizão de organizações LGBTQ e de direitos humanos, muitas pessoas trans na Argentina vivem na pobreza e sua expectativa média de vida é de trinta e cinco anos.) Em 2021, mais de duzentas mulheres foram mortas em feminicídios. No final de fevereiro, um estupro coletivo de uma mulher de vinte anos em plena luz do dia no movimentado bairro nobre de Palermo, em Buenos Aires, chocou o país.

Em “O Parque das Irmãs Magníficas”, Sosa Villada oferece algumas maneiras de combater o ódio. Uma está revidando: quando Camila e uma colega travesti, Angie, estão sendo espancadas e estranguladas por dois clientes em um carro, outra travesti arrasta um dos homens para fora e passa a “pisar nas bolas dele com seus saltos altos. Na confusão, Angie pegou sua faca e esfaqueou a outra na cintura.” (Sosa Villada já foi igualmente resgatada de uma surra.) Outra abordagem menos extrema é buscar o consolo da comunidade: em “O Parque das Irmãs Magníficas”, o recém-nascido abandonado é levado para a “pensão mais estranha do mundo”, porque “durante os tempos desesperados, ela oferecia abrigo, proteção, socorro e conforto.” Então há magia. Uma das travestis, depois de muito sofrimento, aos poucos se transforma em um pássaro, “nosso pássaro, nossa irmã mais livre, que podia voar para onde quisesse”. (O romance também apresenta homens sem cabeça, que sobreviveram a guerras em terras estrangeiras – e a matriarca da pensão tem cento e setenta e oito anos.) Registrar a experiência travesti, por mais dolorosa que seja, como algo precioso, é o propósito de “O Parque das Irmãs Magníficas”.

Você é uma maravilha, você não é ninguém, você é um navio à deriva: Melville sobre o mistério do que nos torna quem somos 

Não há progresso sem retrocesso nessa vida; não avançamos segundo progressões fixas, com uma pausa no fim: – através do encantamento inconsciente da infância, da fé imprudente da meninice, da dúvida da adolescência (o destino comum), e então o ceticismo, a descrença, descansando afinal no repouso meditativo do Se da madureza. Mas, mal percorridos, recomeçamos os caminhos; e somos crianças, meninos, homens, e eternos Ses”.  – *Moby Dick

(ligeiramente modificado de M A R I A  P O P O V A)

O eu é um estilo de ser, continuamente expandido em um processo vital de definição, afirmação, revisão e crescimento”, escreveu o poeta Robert Penn Warren em seu desafio apaixonado e perspicaz sobre noção de “encontrar a si mesmo” – algo que o psicólogo de Harvard, Daniel Gilbert capturou meio século depois em sua memorável piada sobre os pontos cegos do nosso vir a ser : “Os seres humanos são obras em andamento que erroneamente pensam que estão acabadas”.

hermanmelvilleMuito tempo antes, Herman Melville (1/08/1819 – 28/09/1891) teceu as eternas questões de ser e de tornar-se no coração de Moby-Dick  – o clássico de 1851 que ele escreveu como uma carta de amor de 927 páginas para Nathaniel Hawtorne.

Dois milênios depois de Plutarco se perguntar o que faz de você, você, no experimento Navio de Teseu; duas décadas antes de Nietzsche advertir que “ninguém pode construir a ponte sobre a qual você, e somente você, deve cruzar o rio da vida”, e um século antes de James Baldwin voltar-se para o mar constatando que nada neste mundo é fixo, incluindo a nós mesmos, Melville considera a miríade de voltas e reviravoltas, os saltos para frente e para trás, os desvios e digressões pelos quais a história da vida se conta através de nós. No centro de sua meditação está um aviso: devemos nos libertar da ilusão de que existe um vetor constante de crescimento pessoal, ao longo do qual deslizamos imperturbáveis ​​em direção a uma completude final, onde finalmente nos tornamos plenamente realizados e onde a vida está finalmente, permanentemente acalmada. Ele escreve:

Não há progresso sem retrocesso nessa vida; não avançamos segundo progressões fixas, com uma pausa no fim: – através do encantamento inconsciente da infância, da fé imprudente da meninice, da dúvida da adolescência (o destino comum), e então o ceticismo, a descrença, descansando afinal no repouso meditativo do Se da madureza. Mas, mal percorridos, recomeçamos os caminhos; e somos crianças, meninos, homens, e eternos Ses. Onde fica o último porto, de onde não mais zarparemos?mochadick

À medida que o romance se aproxima de sua última pausa, Melville faz seu ponto mais pungente e perspectivo sobre a personalidade – um lembrete de que nós, maravilhosos como somos em nossa individualidade, somos muito menos diferentes uns dos outros do que gostaríamos de acreditar, quando vistos com imparcialidade, com um olhar mais livre da vaidade humana. “Todos os tipos de homens em um só tipo de mundo, bem se vê”, ele se maravilha. Mas então ele se volta para o fato subjacente de que nós – criaturas nascidas auto-referentes e criadas para nos sentirmos únicas – sempre enfrentaremos desconforto:

Senta-te sultanicamente entre as luas de Saturno, e imagina um solitário homem abstrato; e ele te parecerá um prodígio, uma grandeza, um sofrimento. Do mesmo ponto, porém, imagina toda a humanidade, e, na maior parte, ela te parecerá uma turba de desnecessárias duplicatas, a um só tempo contemporâneas e hereditárias.

Na verdade, somos cópias quase idênticas das mesmas necessidades básicas, esperanças, medos e anseios da alma, e feitos da mesma poeira de estrelas. Afinal, é por isso que um romance – ou qualquer obra de arte – que surge da imaginação de um único indivíduo consegue mobilizar e encantar milhões ao longo do tempo e do espaço, através de culturas, séculos e personalidades diferentes.


*Os trechos de Moby Dick são da edição do ebook da Cosac Naif

A liberdade de ver os outros

DFWDavid Foster Wallace

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

– Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

– Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude, mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica – pelo menos no meu caso – é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de “ensinar os alunos como pensar” é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. “Aprender a pensar” significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Lembrem o velho clichê: “A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível.” Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um “boa noite, volte sempre” numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim – só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação “inferno do consumidor” não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas – e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência – consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor – daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: “Isto é água, isto é água.”

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.


Este texto é a transcrição do discurso de que David Foster Wallace quando foi paraninfo de formatura, na Universidade Kenyon, em maio de 2005.

Como ‘Strange Fruit’ matou Billie Holiday

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Foto de William P. Gottlieb. Billie Holiday e Mister at Downbeat em Nova York, ca. Fevereiro de 1947. Biblioteca do Congresso dos EUA

por Brandon Weber em 20 de fevereiro de 2018 

“Strange Fruit” pode ter sido escrita pelo compositor e poeta americano Abel Meeropol (também conhecido como Lewis Allen), mas desde que Billie Holiday cantou as três breves estrofes da música em 1937, ela se tornou a encarnação desta poesia.

Holiday, nascida Eleanora Fagan, disse que sempre pensava em seu pai quando cantava “Strange Fruit”. Ele morreu aos 39 anos de idade depois que um “Hospital para Brancos” negou a ele tratamento médico. Por causa dessa memória, Holiday relutou em incorporar esta música ao seu repertório, mas acabou por fazê-lo como uma maneira de contar às pessoas sobre a realidade da vida sendo uma pessoa negra na América.

“Isso me lembra como Pop morreu”, escreveu ela em sua autobiografia . “Mas eu preciso continuar cantando, não apenas porque as pessoas pedem, mas porque vinte anos depois da morte de Pop, as coisas que o mataram ainda estão acontecendo no sul”.

A música era tão pungente para Holiday que ela estabeleceu algumas regras quando a cantava em seus shows: ela fechava o show com a música; os garçons parariam de servir quando ela começasse; e o recinto ficaria na escuridão total, exceto por um holofote em seu rosto. Não haveria bis.

“Lady Day”, como Holiday era chamada por muitos na época, começou a trabalhar a música em seu repertório dezesseis anos antes de Rosa Parks se recusar a ceder seu assento no ônibus em Montgomery, Alabama. O escritor de jazz Leonard Feather se referiu à música como “o primeiro protesto significativo em palavras e música, o primeiro grito significativo contra o racismo”.

As estrofes da música eram chocantes para alguns membros do público majoritariamente branco de Holiday:

Árvores do sul dão frutos estranhos

Sangue nas folhas e sangue na raiz

Corpos negros balançando na brisa do sul

Fruta estranha pendurada nas árvores.

Às vezes, sua apresentação da música era recebida com uma feroz rejeição. Embora muitas pessoas soubessem que linchamentos de afro-americanos no sul eram comuns, houve resistência ao fim da prática entre os brancos do sul. O racismo, combinado com o desejo popular de limitar o poder federal sobre as ações locais, impediu as pessoas do Norte de tomarem medidas bem-sucedidas para acabar com os linchamentos no sul.

No final, a insistência de Billie Holiday em executar “Strange Fruit” pode ter sido responsável por sua morte.

Uma das principais tentativas de silenciá-la veio de um homem chamado Harry Anslinger, o primeiro comissário do Bureau Federal de Narcóticos e que era um racista extremo, mesmo para os anos 30. Como detalha Johann Hari em Chasing the Scream: Os Primeiros e Últimos Dias da Guerra contra as Drogas, Anslinger afirmou que os narcóticos fizeram os negros esquecerem seu lugar na sociedade americana, e que os músicos de jazz eram particularmente perigosos, criando músicas “satânicas” sob a influência da maconha.

Holiday, que ao longo de sua carreira chamou a atenção do público para o impacto devastador da supremacia branca, também era usuária de drogas. Ela chamou a atenção de Anslinger, e ele  ordenou que Holiday parasse de tocar a música. Holiday se recusou e Anslinger aumentou seus esforços para silenciá-la.

Depois que um dos homens de Anslinger foi pago para rastrear Holiday e forçá-la a comprar e usar heroína, ela passou dezoito meses na prisão. Após a sua libertação em 1948, o governo federal recusouse a renovar a sua licença de artista, que era obrigatória para qualquer artista tocando ou cantando em qualquer clube ou bar que servisse álcool.

Isso minou totalmente sua carreira. Embora Holiday tenha conseguido realizar várias apresentações esgotadas no Carnegie Hall nos próximos anos, ela não podia mais viajar para tocar no circuito de clubes.

Incapaz de se apresentar regularmente nos locais que amava, e de parar de se lembrar de uma infância que incluía ter sido violentada aos dez anos de idade e trabalhar em um bordel com sua mãe, Holiday finalmente começou a usar heroína novamente. Quando ela se internou em um hospital de Nova York em 1959, seu fígado estava com problemas, tomado pelo câncer. Ela estava emaciada, e seu coração e pulmões estavam comprometidos. Apesar de sua condição, ela não queria ficar lá. “Eles vão me matar. Eles vão me matar lá. Não deixem isso acontecer – ela implorava a amigos e familiares.

De fato, os homens de Anslinger, pressentindo uma oportunidade macabra, apareceram ao lado da cama de seu hospital, algemaram-na, tiraram fotos, removeram presentes que as pessoas trouxeram para o quarto – flores, rádio, toca-discos, chocolates, revistas – e colocaram dois policiais na porta.

Mesmo assim, quando os médicos começaram o tratamento com metadona, Holiday começou a melhorar, ganhando peso e melhorando lentamente. Mas então os homens de Anslinger impediram a equipe do hospital de administrar mais metadona. Ela sucumbiu à morte em poucos dias.

A única versão filmada sobrevivente de Holiday tocando a música é do programa de televisão britânico de cabaré “Chelsea At Nine”, gravado em 25 de fevereiro de 1959 e lançado em março do mesmo ano, apenas alguns meses antes de sua morte. Sua voz é forte e impressionante; a emoção crua simplesmente devastadora.

 [youtube https://www.youtube.com/watch?v=dnlTHvJBeP0&w=560&h=315]

Minhas aventuras na psicodelia

Helen Joyce

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United Archives/Carl Simon/Bridgeman Images Carl Simon: Vivendo no mar , século XX

Tudo começou com uma resenha de livro. No ano passado, li um artigo de David Aaronovitch no Times de Londres sobre o livro Como mudar sua mente, de Michael Pollan. O livro trata de um ressurgimento do interesse em drogas psicodélicas, que foram amplamente banidas após as aventuras de Timothy Leary com LSD, a partir do final da década de 1960, em que ele incentivou a juventude americana a “ligar, sintonizar e abandonar”. Nos últimos anos, no entanto, os cientistas começaram a testar os usos terapêuticos dos psicodélicos em busca de efeitos em uma gama extraordinária de doenças, incluindo depressão, dependência e angústia do final da vida.

Aaronovitch mencionou de passagem que ele estava intrigado o suficiente para reservar um “retiro psicodélico” na Holanda, administrado pela Sociedade Psicodélica Britânica, embora, no seu caso, sua esposa tenha batido o pé e ele tenha cancelado o retiro. Experimentar psicodélicos era algo que eu secretamente ansiava por fazer desde que era adolescente, mas sempre fui muito cautelosa e avessa a riscos. Quando fiquei mais velha, o momento pareceu passar. Hoje sou uma jornalista de meia-idade trabalhando em Londres, editora financeira do The Economist, esposa, mãe e, ao que parece, uma pessoa totalmente desprovida de tendências contraculturais.

E ainda assim… por impulso, eu resolvi tentar. Só depois que reservei eu contei ao meu marido. Ele ficou confuso, mas disse que estava tudo bem por ele, desde que eu não decidisse sob a influência dos psicodélicos, que não o amava mais. Meu filho de dezoito anos achou a coisa toda muito engraçada (acontece que sua mãe “se ligar” é uma boa maneira de fazer com que as drogas pareçam menos legais).

*

Um dia, depois de fechar a seção de finanças e economia daquela semana do The Economist, subi no trem Eurostar para Amsterdã. No dia seguinte, conheci meus companheiros de viagem – dez no total, de várias partes da Europa e dos Estados Unidos – em um escritório de Amsterdã. De acordo com as instruções que recebemos, cada um de nós comprou duas porções de trufas “High Hawaiian” – fungos macios e marrons claros em uma embalagem a vácuo – a um preço com desconto de 40 euros, e paramos por quatro dias em um antigo celeiro reformado no campo.

Eu tinha o pressentimento de que, além de qualquer experiência psicodélica que eu pudesse ter, haveria também muitos cânticos e mãos dadas a estranhos. Sou ateia e cética convicta: não acredito em chi ou acupuntura e não tenho tempo para cristais e sinos. Mas, consciente de que é arrogante permanecer indiferente em tais circunstâncias, decidi que me jogaria no que me pedissem.

E assim, eu não apenas pratiquei ioga e meditação, mas também me envolvi em longos períodos de agitação em todo o corpo, com os olhos fechados e “tom vocal” – emitindo um som, qualquer som, a cada expiração. Olhei nos olhos de alguém que acabara de conhecer e perguntei repetidamente, conforme as instruções: “O que a liberdade significa para você?” Entrei para “círculos de compartilhamento”. Tudo isso pretendia nos preparar para a viagem. Os facilitadores falaram sobre a importância do seu “todo” (ou estado de espírito) e de se sentir seguro e confortável no seu “ambiente” (onde você está e com quem está).

Um dos meus companheiros de viagem havia participado de um teste de psilocibina no King’s College London. Ele e três outros receberam aleatoriamente um placebo ou uma dose baixa, normal ou alta do medicamento em forma de pílula. Era óbvio, ele disse, que ele era o único que recebeu o placebo. Para tornar as viagens ruins menos prováveis, os pesquisadores haviam aconselhado os participantes a não resistir a qualquer coisa que acontecesse: “Se você vir um dragão, vá em direção a ele”. E fascinante foi o motivo de ele ter participado desse retiro. “Todos eles tinham dragões”, ele me disse. “Eu também queria um dragão.”

As pessoas que tomaram psicodélicos geralmente classificam a experiência entre as mais profundas de suas vidas. Da minha parte, eu não estava procurando por mim mesma, por Deus, ou por transcendência; nem estava procurando alívio para depressão ou pesar, tenho uma vida feliz e gratificante. Mas fiquei impressionada com algo que Pollan discute em seu livro: estudos em que os terapeutas usavam viagens para tratar o vício.

Eu nunca fumei e não tenho vícios dramáticos, mas os hábitos de tomar café durante a manhã e um copo de vinho uma ou duas noites quase me dominaram nos últimos anos. Nenhum dos dois parecia sério, mas ambos passaram a parecer necessidades – parte de um padrão maior de uma vida apressada e sem liberdade, com muitas coisas feitas por compulsão, em vez de desejo ou prazer.

São os de meia-idade e não os jovens que mais poderiam se beneficiar de uma “experiência do numinoso”, disse Carl Jung, citado por Pollan.

*

No grande dia, nos reunimos na sala principal, cada um de nós com um colchão e uma máscara para os olhos, depois de uma benção ritual com sálvia ardente e muitos refrões de uma música chamada “Tall Trees”. Os facilitadores colocaram uma lista de de música criada para o uso terapêutico da psilocibina, envolvendo harpas, cachimbos e canto coral. Cada um de nós tinha nossas trufas trituradas em um copo, e os facilitadores serviram chá de gengibre, o que ajudaria com náuseas leves que podem ocorrer com a droga. Houve uma segunda infusão e, se quiséssemos, uma terceira. Pedi um terceiro copo, mas nunca bebi. Em alguns minutos, meu campo de visão estava cheio de fractais cintilantes. Deitei e fechei os olhos – e fui embora, para não voltar, por várias horas.

Depois de um tempo imensurável, a náusea desaparece, e a visão também. Agora tudo o que vejo são trechos desconexos – fósseis de cavalos-marinhos em azul, verde e areia; lascas de osso… e então experimento o que é chamado de “dissolução do ego”: perco todo o senso de um “eu”. O tempo para. As notas da música tocando deixam de se seguir em sequência: elas se tornam objetos sólidos, pilares e, quando se partem, eu desapareço em uma fenda entre duas notas. Tudo caminha para um escuro confuso e eu me dissolvo no nada.

Isso não chega nem perto de descrever a experiência. De fato, talvez seja tão cansativo ler como a maioria dos relatos de viagens, como ouvir sobre o sonho de outra pessoa. Mas essa experiência de deixar de ser ainda parece profunda – não porque eu realmente pense que, quando morrer, desaparecerei em uma fenda entre duas notas solidificadas (embora sim, por favor, se isso for uma opção), mas porque se concretizou algo que antes, havia sido apenas um experimento mental: a idéia de não-ser, da dissolução final da morte – algo sobre o qual, como mãe ateia, eu tive que conversar com meus filhos. Eu tinha experimentado um final. E o que eu disse era verdade: não havia eu em mente, então eu não me importei.

*

Após um período de tempo incomensurável, percebi novamente que eu existia. Finalmente, consegui me sentar e abrir os olhos. As duas facilitadoras – ambas muito amáveis ​​na realidade – foram transformadas em deusas: Atena e Afrodite, talvez. Eu me senti envergonhada até de olhar para elas. O agradável celeiro convertido se tornara Valhalla, com as vigas de madeira douradas, as velas esculpidas em porcelana iluminadas por dentro. Uma das deusas me ofereceu um copo de água e fiquei fascinada por sua substância, profundidade e clareza, maravilhada com o fato de que alguma coisa pudesse ser tão bonita.

Coloquei meus fones de ouvido e ouvi minha música favorita, Musique à Grande Vitesse , de Michael Nyman. Ouvi suas complexas linhas entrelaçadas como nunca as ouvira antes, de alguma forma estavam separadas e simultâneas. Finalmente, quando minha viagem chegou ao fim, algo me levou a fazer o tipo de dança performática tediosa que eu não suporto assistir. Pior, eu dancei esta obra-prima não de pé, mas deitada e me contorcendo no colchão.

Quando todos comparamos anotações no dia seguinte, descobri que minhas experiências haviam sido atípicas. Um homem havia se barbeado – o melhor barbear de todos os tempos, aparentemente, feito com um pequeno diamante; outro falou com árvores; outros se encontraram com Jesus, Maomé e Buda. Eu senti inveja da pessoa que havia saído e mergulhado no estame de uma flor, viajando primeiro para um nível celular e depois para um nível atômico, antes de voltar para uma vista panorâmica de todo o país, que ele via como jardim.

Alguns de meus companheiros de viagem falaram em sentir uma conexão intensa com todos os seres vivos, até mesmo um amor absoluto por todos os seres. Mas eu me encontrei sozinha no universo. Na noite anterior, surpreendi-me dizendo a outro participante que achava que meus dias, sempre cercada de muita gente, era desgastante. Qualquer um que me conhece me descreveria como sociável, mas agora eu vi, muito claramente, que precisava ser mais autônoma. Naquela noite, escrevi: “Hábitos. Você não precisa. Solidão.”

*

Mesmo depois de voltar para casa, eu ainda me sentia espaçada, feliz. Não vi Deus, mas durante meses depois me lembrei de uma sombra pálida da beleza que havia experimentado olhando o copo de água ou a vela acesa ou ouvindo a música de Nyman. Eu contei ao meu marido sobre isso – ele não sente vontade de experimentar (embora deseje estar lá para ver a dança performática). Fiz pequenas mudanças para melhorar a vida, como comprar fones de ouvido com cancelamento de ruído para poder ouvir música corretamente e me sentir sozinha no meu trajeto. Para minha alegria, minha consciência da música ainda está aumentada. Meses se passaram antes que eu bebesse café ou álcool novamente; e ainda bebo muito menos do que antes.

Acima de tudo, tenho uma agradável sensação de distância dos aborrecimentos do dia a dia. Eu me sinto menos permeável. Eu tive que me observar com o desapego de uma maneira que, de outra forma, poderia levar anos de psicoterapia para ser alcançada.

Pesquisadores que procuram usar psicodélicos para fins terapêuticos falam sobre a verossimilhança e a intensidade da experiência. Eles acham que o efeito é causado por um desligamento temporário da “rede de modo padrão” – as partes do cérebro que nos permitem refletir, lembrar o passado e imaginar o futuro. Ao mesmo tempo, novas conexões neurais são formadas, o que pode explicar o senso de maior consciência, os sentimentos de unidade e a sinestesia que algumas pessoas experimentam (a mistura de sentidos, na qual um som pode ser “visto” ou uma visão pode ser ouvida ou sentida ao toque). Isso pode explicar por que uma única viagem psicodélica às vezes pode aliviar até a depressão crônica mais grave. As pessoas deprimidas geralmente dizem que são incapazes de desviar sua atenção de pensamentos repetitivos e infelizes e que não sentem mais prazer.

Eu pretendo tomar psicodélicos novamente. Da próxima vez, eu gostaria de sentir as árvores crescendo ou transformar o mundo em um jardim. Gostaria de viajar durante o verão para que, ao invés de Valhalla, eu pudesse ver uma planta crescer em Yggdrasil, a poderosa árvore da mitologia nórdica. Eu gostaria de contemplar a beleza de uma íris ou uma flor de maracujá, em vez de um copo da Ikea. Talvez, em vez de realizar meus próprios giros absurdos em um colchão, eu possa assistir a um vídeo de uma grande bailarina dançando.

“É possível sentir-me diferente sobre as coisas”, escrevi para mim mesma no dia em que voltei da minha viagem. “Você não precisa ser quem sempre foi. Mais coisas são escolhas do que você imaginava. As coisas comuns são muito bonitas se você tem olhos para ver.

11 de outubro de 2019 às 07:00

Um guia para ter cultura

vidaeobrapaulofrancis
Quero muito ler este livro, deve ser uma delícia

Uma bibliografia básica para quem quer compreender a aventura da humanidade

Paulo Francis

OESP – 30/05/91

Pedem minha ficha acadêmica para jovens vestibulandos… Não tenho. Tentei um mestrado na Universidade Columbia em Nova York 1954, mas desisti, aconselhado pelo professor-catedrático Eric Bentley. Achou que eu perdia o meu tempo. Li toda a literatura relevante, de Ésquilo a Beckett, e sabia praticamente de cor a Poética de Aristóteles. Em alguns meses se lê tudo que há de importante em teatro. Li e reli anos a fio.

Mas, sem o doutorado ou nem sequer mestrado, me proponho fazer algumas indicações aos jovens, que, no meu tempo, seriam supérfluas, mas que, hoje, talvez tenham o sabor de novidade. Falo de se obter cultura geral. É fácil.

Educação era a transmissão de um acúmulo de conhecimentos. Hoje, é uma adulação da juventude, que supostamente deve fazer o que bem entende, estar na sua, como dizem, e o resultado é que os reitores de universidades sugerem que não haja mais nota mínima de admissão, que se deixe entrar quem tiver nota menos baixa. Deve haver exceções, caso contrário o mundo civilizado acabaria, mas a crise é real, denunciada por gente como o príncipe Charles, herdeiro do trono inglês, e por intelectuais como Alan Bloom, que consideram a universidade perdida nos EUA. No Brasil, houve a Reforma Passarinho nos anos 80. A ditadura militar tinha o mesmo vício da esquerda. Queria ser popular. Era populista. Quis facilitar o acesso universitário ao povo, como reza o catecismo populista. Ameaça generalizar o analfabetismo.

Não há alternativa à leitura. Me proponho apontar alguns livros essenciais ao jovem, um programa mínimo mesmo, mas que, se cumprido, aumentará dramaticamente a compreensão do estudante do mundo em que está vivendo.

Começando pelo Brasil, é indispensável a leitura de Os Sertões, de Euclides da Cunha. É curto e não é modelo de estilo. Euclides escreve como Jânio Quadros fala. É cara do far-te-ei, a forma oblíqua de que Jânio se gaba. Mas o livro é de gênio. Nos dá a realidade do sertão, que é, para efeitos práticos, o Brasil quase todo, tirando o Sul; a realidade do sertanejo, e do nosso atraso como civilização, como cultura, como organização do Estado. Euclides mostra o choque central entre o Brasil que descende da Europa e o Brasil tropicalista, nativo, selvagem. Euclides apresenta argumentos hoje superados sobre a superioridade da Europa, mas nem por isso deixa de estar certo. Tudo bem ter simpatia pelo índio e o sertanejo, o matuto, mas nosso destino é ser, à brasileira, à nossa moda, um país moderno nos moldes da civilização européia. Euclides começou o livro para destruir Antônio Conselheiro e a Revolta de Canudos, mas se deixou emocionar pela coragem e persistência dos revoltosos e terminou escrevendo um grande épico, em prosa, que o poeta americano Robert Lowell, que só leu a tradução, considera superior a Guerra e Paz, de Tolstoi.

Mas o importante para o jovem é essa escolha entre o primitivo irredentista dos Canudos e a civilização moderna, porque é o que terá de enfrentar no cotidiano brasileiro. É o nosso drama irresolvido.

Leia algum dos grandes romances de Machado de Assis. O mais brilhante é Memórias Póstumas de Brás Cubas. Para estilo, é o que se deve emular. O coloquialismo melodioso e fluente de Machado. É um grande divertimento esse livro. Eu recomendaria ainda para os que tem dificuldade de manejar a língua O Memorial de Aires. É o livro mais bem escrito em português que há.

Os gregos são um dos nossos berços. Representam a luz e a doçura, na frase de um educador inglês, Mathew Arnold (também poeta e crítico). Arnold falava contra a tradição judaico-cristã, dominante na nossa cultura, na nossa vida, a da Bíblia e do Novo Testamento, que predominaram no mundo ocidental desde o Século V da Era Cristã, quando o imperador romano Constantino se converteu ao cristianismo. Estudos gregos sérios só começaram no Século IXX, quando se tornaram currículo universitário, porque antes os padres e pastores não deixavam.

Mas leia originais. Escolhi quatro. Depois de se informar sobre Platão na enciclopédia do seu gosto, se deve ler A Apologia, que é a explicação de Sócrates a seus críticos, quando foi condenado à morte, e Simpósio, um diálogo de Platão. Platão não confiava na palavra escrita. Dizia que era morta. Preferia a forma de diálogo.

Na Apologia se discute o que é mais importante na vida intelectual. A liberdade de ter opiniões contra as ortodoxias do dia. Ajudará o estudante a pensar por si próprio e ter a coragem de suas convicções.

Depois, o delicioso Simpósio. É uma discussão sobre o amor, tudo que você precisa saber sobre o amor sensual, o altruístico, o que chamam de platônico, é o amor centrado na sabedoria.

Platão colocou, à parte Sócrates, seu ídolo, no Diálogo, Aristófanes, o grande gozador de Sócrates. Na boca de Aristófanes põe uma de suas idéias mais originais. Que o ser humano era hermafrodita, parte homem parte mulher, e que cada pessoa, depois da separação, procura recuperar sua parte perdida, e daí a predestinação da mulher certa para um homem e do homem certo para uma mulher.

Imprescindível também ler As Vidas, de Plutarco, o grande biógrafo da Antiguidade. Ficamos sabendo como eram os grandes nomes em carne e osso, de Alexandre, paranóico, a Júlio César, contido, a Antônio e Cleópatra. Shakespeare baseou grande parte de suas peças em Plutarco e leu em tradução inglesa, porque Shakespeare, como nós, não sabia latim ou grego. E, finalmente, como história, leia A Guerra do Peloponeso, de Tucídides. É sobre a guerra entre Atenas, Esparta, Corinto e outras, durante 27 anos, no Século V antes de Cristo. Lendo sobre Péricles, o líder ateniense, Cleon, o führer espartano, e Alcebíades, o belo, jovem e traiçoeiro Alcebiades, nunca mais nos surpreenderemos com qualquer ato de político em nossos dias. É o maior livro de história já escrito. Sempre atual.

Da Roma original basta ler Os Doze Césares, de Suetônio, e Declínio e Queda do Império Romano, de Gibbon. Mais um banho de natureza humana.

Meu conhecimento científico é quase nenhum. Mas li, claro, a Lógica da Pesquisa Científica, de Karl Popper, quando entendi o que esses cabras querem. Para quem quer um começo apenas, recomendo o prefácio do Novum Organum, de Francis Bacon, que quer dizer, o título, novo instrumento, e Bacon explica o método científico e o que objetiva a ciência. E para complementá-lo leia o prefácio dos Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural de Isaac Newton, e o prefácio de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead de seus Principios da Matemática Também vale a pena ler a História da Filosofia Ocidental de Bertrand Russell, e o capítulo sobre Positivismo Lógico que é a filosofia calcada no conhecimento científico. Em resumo, tudo que pode ser provado lógica e matematicamente, é filosofia.O resto não é. Acho isso perfeitamente aceitável. Dispenso o resto.

É nas artes que está a sabedoria. Como viver bem sem ler Hamlet, de Shakespeare? Está tudo lá em linguagem incomparável, é de uma clareza exemplar, tudo que nós já sentimos, viremos a sentir, ou possamos sentir.

Preferi citar junto com Shakespeare uma peça grega, que considero vital: Antígona, de Sófocles. Há uma tradução de Antígona, em verso, por Guilherme de Almeida, que Cacilda Becker representou no Teatro Brasileiro de Comédia.

Antígona é o que há de melhor na mulher. É a jovem princesa cujos irmãos morreram em rebelião contra o tio, o rei Creon, e ela quer enterrá-los, porque na religião grega espíritos não descansam enquanto os corpos não são enterrados. Creon não quer que sejam enterrados, como advertência pública a subversivos. Antígona desafia Creon. Ele manda matá-la. Ela morre. Seu noivo se suicida. É o filho de Creon, que enlouquece. Parece um dramalhão, mas não é. É a alma feminina devassada em toda sua possibilidade fraterna. Hegel achava que Antígona era o choque de dois direitos, o direito individual e o direito do Estado. E assim definiu a tragédia.

A melhor história de Roma é a de Theodore Mommsem. A melhor história da Renascença é a de Jacob Buckhardt. Tudo que você precisa saber.

E aprenda com um dos mais famosos autodidatas, Bernard Shaw (o outro é Trotski). Leia todos os prefácios das peças dele. São uma história universal. Um estalo de Vieira na nossa cabeça. Em um dia você lê todos. Anotando, uma semana. Também vale a pena ler a Pequena História do Mundo, de H.G.Wells, superada em muitos sentidos, mas insuperável como literatura.

Passo tranqüilo pelo Iluminismo. Foi tão incorporado a nossa vida, que não é necessário ler Voltaire ou Diderot. Os livros de Peter Gay sobre o Iluminismo são excelentes. Dizem tudo que se precisa saber. Se se quer saber mesmo o que foi o cristianismo, a obra insuperada e As Confissões de Santo Agostinho, uma das grandes autobiografias, à parte a questão religiosa.

Não é preciso ler A Origem das Espécies, de Darwin, mas é um prazer ler Viagens de um Naturalista ao redor do Mundo, as aventuras de Darwin como botânico e zoólogo, a bordo do navio inglês Beagle, nos anos 1830, pela América do Sul, com páginas inesquecíveis sobre Argentina, Brasil e Galápagos, que está até hoje como Darwin encontrou (e o Brasil e Argentina, na sua alma?)

Houve três grandes revoluções no mundo, a americana, a francesa e a russa. A literatura não poderia ser mais copiosa. Mas basta ler, por exemplo, Cidadãos, de Simon Schama, para se ter um relato esplêndido da revolução interrompida, 1789-1794, na França, e concluir com o livro de Edmund Wilson, Rumo à Estação Finlândia. Schama é conservador, Wilson não era, quando escreveu, fazia fé, ainda na década de 30, como tanta gente, na Revolução Russa. Mas a esta altura, e mesmo antes de ele morrer, em 1972, é fácil notar que a Revolução Russa não teve o Terror interrompido, como a Francesa, mas continuou até Gorbachev revelar o seu imenso fracasso.

O melhor livro sobre a Revolução Francesa é História da Revolução em França, de Edmund Burke, de 1790, que previu o Terror de Robespierre e Saint-Just. Se o estudante quer um livro a favor da Revolução Francesa, leia, o título é o de sempre, o de Gaetano Salvemini. A favor da russa a de Sukhanov, que a Oxford University Press resumiu num volume, ou A Revolução Russa, de Trotski, um clássico revolucionário. Mas os fatos falam mais alto que o brilho literário de Trotski.

Sobre a Revolução Americana não conheço livro bom algum traduzido, mas por tamanho e qualidade, um volume só, sugiro a da editora Longman, A History of the United States of America, do jovem historiador inglês Hugh Brogan, 749 págs, apenas, quando comprei custava US$ 25. Tem tudo que é importante.

Em economia, a Abril publicou 50 volumes dos principais economistas. Eu não perderia tempo. Têm tanta relação com a nossa vida como tiveram Zélia e a criançada assessora. Mas há o Dicionário de Economia, também da Abril. Quando tascarem o jargão, você consulta para saber, ao menos, o que significa a embromação. Economia se resume na frase do português: quem não tem competência não se estabelece.

Dos romances do Século IXX, Guerra e Paz, de Tolstoi, e Crime e Castigo, de Dostoiewski, me parecem absolutamente indispensáveis. Guerra e Paz porque é o retrato completo de uma sociedade como uma grande família, porque rimos e choramos sem parar, porque contém um mundo e as inquietações do protagonista, Pierre Bezhukov, que até hoje não foram respondidas. Crime e Castigo, porque exemplifica toda a filosofia de Nietzsche de uma maneira acessível e profundamente dramática, de como o cérebro humano é capaz de racionalizar qualquer crime, que tudo é relativo, em suma, a pessoa que pensa e age, como Raskolnikoff, o protagonista. Vale tudo. Dostoiewski, para nos impedir de aniquilar uns aos outros, acrescenta que não se pode viver sem piedade.

Dos modernos, Proust é maravilhoso, mas penoso, Joyce é desnecessário, mas vale a pena ler as obras-primas de Thomas Mann, A Montanha Mágica, para saber o que foi discutido filosoficamente neste século, e Dr. Fausto, que leva o relativismo niilista que domina a cultura moderna e de que precisamos nos livrar, se vamos sobreviver culturalmente, como civilização, e não como meros consumidores, num nível abjeto de satisfação animal.

Há muitas obras que me encantaram e não estou, de forma alguma, excluindo autores ou quaisquer livros. A lista que fiz me parece o básico. Em algumas semanas, duas horas por dia, se lê tudo.(1) Duvido que se ensine qualquer coisa de semelhante nas nossas universidades. Se eu estiver enganado, dou com muito prazer a mão à palmatória.


NOTA:

 

(1) Evidentemente, é a isso o que podemos chamar de “cultura utilitarista” da pequena burguesia, ou então, já agora e como previa Carpeaux, de “cultura de super-mercado“.

Trazendo uma filha de volta do abismo com poemas

Por Betsy MacWhinney 

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26 de fevereiro de 2015

Quando George W. Bush foi reeleito em 2004, minha filha de 13 anos, Marisa, ficou tão brava que parou de usar sapatos.

Ela escolheu a rebelião mais ineficaz que se possa imaginar: dois pezinhos descalços contra o mundo. Ela declarou que não voltaria a usar sapatos até termos um novo presidente.

Eu aprendi cedo na maternidade que não vale a pena brigar com seus filhos sobre roupas, então eu assisti silenciosamente enquanto ela andava descalça todas as manhãs, andando pela entrada de automóveis de cascalho na escuridão fria e chuvosa para esperar o ônibus.

A diretora me ligou algumas vezes, declarando que Marisa tinha que começar a usar sapatos ou seria suspensa. Passei as mensagens, mas minha filha continuou sua marcha descalça.

Após cerca de quatro meses, ela vestiu sapatos sem comentar. Eu não perguntei o porquê. Eu não tinha certeza se o uso de sapatos era um sinal de falha ou maturidade; Perguntar a ela parecia que poderia adicionar insultos desnecessários a lesões.

Mas toda a sua rebelião naquele ano não foi tão inofensiva. Eu temia que ela estivesse agindo de maneira perigosa.

Enquanto caminhávamos pela mercearia um dia, ela pegou um abacate, fazendo com que a manga da blusa recuasse, revelando uma cicatriz assustadora no pulso ao longo do lugar onde estaria uma pulseira.

Peguei a mão dela. “Oh, Marisa. Você deve estar sofrendo tanto!

Ela desviou o olhar, sem dizer nada.

Tentei reprimir uma onda de náusea gelada pelo conhecimento de que minha filha estava se machucando.

Fiz o que os pais fazem: procurei profissionais e segui seus conselhos. Marisa foi a um terapeuta sozinha, e nós fomos juntas a outro diferente.

Senti uma pontada de horror no estômago, quando um psiquiatra me disse, na frente de Marisa: “Ela não deve ser deixada sozinha e não pode lidar com nada perigoso. Nada de facas. Se você tiver algum medicamento em casa, mantenha-o trancado e longe dela.

Mais tarde, naquela noite, descarregamos a máquina de lavar louça juntos, ela de um lado, eu do outro. Inconscientemente, passei para ela uma faca afiada para guardar.

“Mãe, você tem certeza de que pode confiar em mim com isso?” Ela disse brincando.

Eu me mantive muito bem até esse ponto, pelo menos na frente dela, mas comecei a soluçar incontrolavelmente quando ela disse isso.

Ela pareceu surpresa e me deu um abraço. “Eu vou ficar bem”, ela prometeu.

Comecei o Tuesday Night Dinners, para o qual convidaria todos que sabíamos que ficariam bem com a cena caótica de um jantar em família durante a semana.

Às vezes, três pessoas apareciam, às vezes 20, e comíamos o tipo de comida simples que uma mãe que trabalha pode juntar entre chegar em casa às 17h e ter pessoas chegando às 17h30.

Os pais de suas amigas vinham com os adolescentes e, pelo menos naquela noite, a casa estava animada com as pessoas. Eu queria que a vida chegasse até ela. Eu queria que ela flutuasse na corrente de conexões ricas.

Outras noites foram preenchidas com silêncios sombrios e delicados, pontuados por pequenos conflitos: eu resistindo à vontade de perguntar como ela estava, porque eu tinha medo do que poderia aprender e ela lutando bravamente  para entender a adolescência.

Enquanto ela tocava violão no quarto, tentei não espionar do lado de fora da porta fechada, mas quando a música parou, tive que respirar através do pânico, me perguntando se ela ainda estava a salvo.

Não estava claro para ela se deveria se preocupar em crescer. Ela me perguntava: “Você gosta da sua vida?” O tom dela implicava o julgamento da minha vida sem que ela precisasse explicá-la: você dirige, trabalha em um cubículo, faz um monte de tarefas e ainda está sozinha. Qual é o objetivo?

Um dia, meu filho chegou da escola falando sobre um vandalismo ocorrido na escola primária. “Alguém pintou com spray em todo o pátio da escola”, disse ele. “Coisas como ‘Muitos arbustos, (bushes) para poucas árvores’. “

Olhei de lado para Marisa. Ela encontrou meus olhos e olhou para baixo, confirmando minhas suspeitas. Não sou fã de vandalismo, mas fiquei feliz em saber que ela se importava tanto com alguma coisa.

Acontece que ela fez a pichação com um garoto, que foi pego e obrigado a pagar uma multa. Pedi à minha filha que ligasse para a família do menino e confessasse o que ela fez e me ofereci para pagar metade da multa, o que eles aceitaram.

Então eu comecei a deixar poemas nos sapatos dela pela manhã. Ela usara os sapatos como uma forma de protesto silencioso, então decidi que os usaria para manter uma posição tranquila de esperança. Quando uma de suas principais estratégias como mãe envolve deixar a “Frente de libertação do agricultor louco” de Wendell Berry no lugar do seu filho, fica claro que as coisas não estão indo muito bem.

O que eu queria que ela soubesse é: as pessoas já sofreram antes, lutaram para encontrar a esperança e olhem tudo o que fizeram com ela. Eles fizeram poesia que caiu bem no seu sapato, o mesmo sapato que você não usava há quatro meses por causa do seu desespero.

Antes de ela ir para a escola de manhã, eu queria que ela lesse o poema “Wild Geese” de Mary Oliver que fala sobre não ter que ser bom e não ter que andar de joelhos por quilômetros, se arrependendo. Como Oliver escreve: “Você só precisa deixar o animal macio do seu corpo amar o que ele ama”.

Ou isso, do Sr. Berry: “Seja alegre, apesar de ter considerado todos os fatos.”

Isso importaria para ela? Ela receberia minha mensagem de que o mundo a amava e realmente deveria tentar começar a amá-lo de volta?

Será que eu a convenceria de que, ainda que as coisas estejam terríveis no mundo, ela poderia, mesmo assim, encontrar motivos para calçar sapatos todos os dias? Criar um filho que não tinha esperança para o futuro parecia o meu maior fracasso de todos os tempos.

Normalmente não convido poesia para minha vida cotidiana. Como ecologista, abraço a ciência. Mas tudo o que eu tinha para oferecer a ela naquele momento eram os pensamentos de outras pessoas que lutavam para ter uma vida significativa e colocaram esses pensamentos nas melhores e mais piores palavras que puderam.

De repente, fiquei impressionado – eu, aquela que ama ciência, dados, fatos e razão – que, quando se trata de motivar, era com a poesia que eu podia contar. A poesia sabia onde a esperança vivia e poderia provocar aquele nó na garganta que me lembra que tudo vale a pena. A ciência não poderia fazer isso.

Eu acreditava, inexplicavelmente, que era urgente entregar as palavras perfeitas no sapato dela todos os dias. Parecia que a vida dela dependia disso.

Um dia, liguei atrasado para o trabalho para comprar uma tesoura e um bastão de cola em um minimercado de posto de gasolina. Levei os suprimentos e uma pilha de revistas descartadas para um restaurante mexicano barato para tomar café ruim e montar poemas em forma de bilhetes de resgate, como se minha filha tivesse sido seqüestrada e eu tivesse que disfarçar a escrita para recuperá-la.

Procurei freneticamente a palavra “ossos” para que eu pudesse acenar para a sexualidade dela com Roethke, “eu conhecia uma mulher, adorável em seus ossos”, mas supersticiosamente não queria cortar a palavra “ossos” de uma manchete sinistra. Eu esperava que ninguém perguntasse por que eu estava atrasada, pois eu não tinha ideia de por onde começar, de como explicar.

Por algumas semanas, ela não comentou os poemas. Ela sabia que eu estava fazendo isso porque tinha que remover os poemas do sapato antes de colocá-los de manhã. Senti-me mais animada, no entanto, ao encontrar um poema bem gasto e muitas vezes dobrado em um bolso enquanto lavava a roupa.

Com o passar dos dias, ela se envolveu mais com a vida. Ela fez planos, começou a correr, plantou sementes, decorou o quarto. Pude ver que para ela calçar os sapatos não era derrota, mas maturidade.

Em algum momento, eu sabia que ela havia saído de um longo túnel escuro. Eu também sabia que não seria o último túnel dela.

As pessoas mais otimistas costumam se esforçar mais. Eles não conseguem entender o que está acontecendo no mundo com suas crenças, e a disparidade é alarmante.

Ela ficou temporariamente presa na encruzilhada da tristeza causada por um cenário político sombrio, na transição para uma escola medíocre e nas vastas questões existenciais de uma adolescente curiosa.

Em retrospecto, meu projeto de poesia foi uma coisa  inofensiva que me manteve benevolentemente fora do caminho, enquanto ela lutava não apenas para ver o horizonte, mas para marchar bravamente em direção a ele.

Alguns anos atrás, ela foi entrevistada para se juntar a um grupo de estudantes em uma longa viagem à Serra Leoa. O professor explicou que provavelmente seria um período muito difícil, longe de casa, com dificuldades físicas e mentais.

“O que você faria”, ele perguntou a Marisa, “se você chegasse ao abismo, e ele começasse a falar?”

“Bem”, respondeu ela, “eu realmente teria muitas perguntas para o abismo.”


Betsy MacWhinney, é ecologista em Duvall, Washington, e está trabalhando em um livro de memórias sobre pais solteiros.

O Manifesto Hosltee

Esta é sua vida.
Faça o que você ama e o faça com frequência.
Se você não gosta de algo, mude-o.
Se não gosta do seu trabalho, saia dele.
Se você não tem tempo suficiente, pare de assistir TV.
Se você está procurando pelo amor da sua vida, pare; ele vai estar te esperando quando você começar a fazer as coisas que você ama.
Pare de analisar demais, a vida é simples.
Todas as emoções são bonitas.
Quando você comer, aprecie cada último pedaço.
Abra sua mente, braços e coração para novas coisas e pessoas, nós somos unidos nas nossas diferenças.
Pergunte à próxima pessoa que você vir qual é a paixão dela e compartilhe seu sonho inspirador com ela.
Viaje frequentemente; se perder vai te ajudar a se encontrar.
A vida é sobre as pessoas que você encontra, e o que você cria com elas, então saia e comece a criar.
A vida é curta.
Viva seu sonho e compartilhe a sua paixão.

(Vamos esquecer que isso foi feito por uma empresa)

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holstee.com/manifesto
[vimeo 34414313 w=640 h=360]

The Holstee Manifesto Lifecycle Video from Holstee on Vimeo.

A Viagem crepuscular de Walter Benjamin

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Fotografia panorâmica de Paris em 1845 feita por Friedrich von Martens (1809-1875)

George Steiner

O crítico analisa “O Trabalho das Passagens”, obra fundamental de um dos principais pensadores alemães do século 20

Inconclusão é a palavra-chave do modernismo. As elaborações sistemáticas da epistemologia e do historicismo do século 19, o “omnium gatherum” projetado com humor por Coleridge e que ganhou forma de leviatã para Hegel e Auguste Comte, desapareceram. Adorno afirma que “a totalidade é a mentira”. Uma poética do fragmentário, dos “fragmentos que apóiam nossa ruína”, habita a literatura moderna. Isso não exclui gradação. Pelo contrário. O inacabado, de final aberto, em Proust ou nos “Cantos”, de Pound, em “Moses und Aron”, de Schoenberg, a “forma aperta” de Musil, gera seus próprios modelos de imensidão incompleta.

No modernismo a forma não é um ato concluído, mas processo e constante revisão. O tema preponderante é, depois de Mallarmé, o da natureza problemática, da ilegitimidade, de passar a ser, simplesmente. A inconclusão, o excesso de esboços, de rascunhos, anotações e emendas circundam, ironizam e subvertem o texto por meio da constante sugestão e implicação de decisões alternativas, do que “poderia ter sido” -outra vez uma categoria que faz de Coleridge o pré-modernista.

Muito antes de Valéry, a intuição dizia que qualquer texto, música ou obra de arte acabada, ainda mais publicada, significava a morte de sua intenção, da visão conceitual que a originara. Surpreendentemente, essa convenção da inconclusão encerra os dois atos representativos da filosofia do século 20: “Ser e Tempo”, de Heidegger, não teve sua prometida terceira parte; e onde estão as totalidades formais de Wittgenstein?

As circunstâncias externas influíram. No barbarismo do século 20, os artistas, escritores e intelectuais foram frequentemente caçados, transformando-se em exilados e refugiados, expulsos de sua língua, das comunidades de reconhecimento em que suas criações poderiam se ter desdobrado. Foram forçados a produzir textos curtos e esópicos sob a pressão da necessidade material e da censura. Manuscritos foram confiscados, e maquetes, destruídas. Telas e partituras foram literalmente esmigalhadas. Mas existe na condição moderna uma pressão mais profunda contra a perfeição, quando essa palavra significa “realização concluída”.

A aceleração e a violência da história recente, o desaparecimento em grande escala dos privilégios da privacidade, do silêncio e do lazer, que permitiam o exercício clássico da leitura e da resposta estética, a economia do efêmero, do descartável e reciclável que alimenta o mercado de consumo em massa, seja na mídia, seja na fábrica, militam contra as representações de completude e totalidade. Como poderíamos reunir a confiança quase megalômana que comanda a ordenação do mundo na “Comédia Humana”, de Balzac (1799-1850), ou na tetralogia de Wagner (1813-83)? A colagem feita de detritos, de coisas efêmeras, de utensílios banais com as bordas gastas é um espelho para os tempos.

Cada um desses componentes se aplica a Walter Benjamin. Muito antes da catástrofe, a sua autoconsciência e o cenário de sua sensibilidade foram os do migrante e do desabrigado. O ritmo de sua existência era peregrino. Qualquer espécie de domesticidade era intermitente. Benjamin (1892-1940) foi, como diz o anti-semitismo com desprezo, um “Luftmensch” (homem de vento), que só se sentia em casa em hotéis baratos, pensões, locações temporárias ou no quarto de hóspedes de amigos compreensivos.

O efêmero foi recuperado e reforçado com as vigas de uma erudição muitas vezes monumental, mas o gênio da inconclusão, a sensação de que, à exceção de alguns, todos os seus textos são uma série de rascunhos, que temem o desfecho, desconfiam da finalização, é inconfundível

Suas companhias eróticas eram agitadas e invadiam a solidão natural de um errante. O credo do provisório, do incompleto, dominou qualquer noção de espírito e de desejo em sua não-carreira. Por outro lado, ou simultaneamente, o envolvimento de Benjamin com o marxismo, seu “pas-de-deux” com o sionismo e a idéia reiterada de emigrar para a Palestina, seus flertes com o haxixe, suas alusões ao mesmo tempo ardentes e irônicas de que poderia haver um lugar para ele na instituição acadêmica possuíam um caráter difuso e inevitavelmente fragmentado. Tinham a instabilidade passageira e a intermitência articulada dos cafés em que eram sonhados e discutidos interminavelmente. Talvez a sala de leitura da Biblioteca Nacional em Paris tenha sido o que mais se aproximou da terra natal de Benjamin. Seu suicídio num hotel decrépito de fronteira (entre a França e a Espanha, em 1940) foi emblemático -sendo o emblema e sua clarividência alegórica um dos temas fulcrais de Benjamin- de sua crepuscular viagem .

Vida precária

Seus textos refletem imediatamente esse desabrigo. A primeira dissertação, rejeitada, sobre o barroco alemão, “A Origem do Drama Barroco Alemão”, é a única monografia completa. A obra de Benjamin existe em forma de ensaios, prefácios, palestras, roteiros para rádio e um corpo considerável de jornalismo. Resenhas de livros, relatos de viagens, folhetins sobre uma ampla variedade de temas culturais e sociais -de cinema a casas de bonecas, de excursões bibliográficas à arquitetura- expressam ao mesmo tempo a vida precária de Benjamin e as colagens contingentes tão típicas de suas inclinações. A inspirada tradução de Proust permaneceu um torso. O extenso artigo de enciclopédia sobre Goethe foi recusado pelos editores soviéticos. Uma quantidade razoável se perdeu por inteiro. Os imponentes volumes de “Escritos Completos” representam um milagre enganoso. O efêmero foi recuperado e reforçado com as vigas de uma erudição muitas vezes monumental (existe em Benjamin um empenho de detalhismo talmúdico e “odium philologicum”). Mas o gênio da inconclusão, a sensação de que, à exceção de alguns, todos os seus textos são uma série de rascunhos, que temem o desfecho, desconfiam da finalização, é inconfundível. Portanto é absolutamente apropriado que a realização máxima de Benjamin consista em 18 anotações aforísticas: as famosas e enormemente importantes “teses” sobre o conceito de história, com sua evocação do “vendaval que veio do Paraíso” e tudo dispersou.

Gênese labiríntica

A gênese de “O Trabalho das Passagens” é labiríntica, assim como Benjamin. Foi em 1927, sob o impacto de “O Camponês de Paris”, de Aragon, que Benjamin começou a planejar um ensaio tendo Paris como tema. Há evidências de que mesmo nessa fase prematura estavam em jogo certos temas cardinais: a Paris do século 19 como “o abrigo da coletividade”; as mudanças provocadas pelo consumo urbano de produtos mercantis; as fantasias surrealistas que poderiam se relacionar à demolição da velha “Passage de l’Opéra”. Inicialmente Benjamin via seu projeto como uma “féerie” dialética, uma rubrica talvez mais precisa e sugestiva do que todas as posteriores. Quando terminou de trabalhar com o material, no exílio parisiense em 1934, Benjamin tinha em mente vários títulos possíveis: “Passagenarbeit” (O Trabalho das Passagens/Galerias), sem dúvida, estaria muito mais no espírito da empreitada. Denota uma “obra em progresso”, um canteiro de construção. A alternativa frequente era “Paris -Capital do Século 19”, versão conhecida pelos que acompanharam e apoiaram a pesquisa.

A labuta de Benjamin se estenderia, com constantes interrupções, por mais de 13 anos. Sua “misère” cada vez mais profunda, que ele via claramente como o fracasso do Front Populaire, a vã esperança de moldar as “Passagens” aos desejos de Horkheimer e Adorno -mestres-de-obras recalcitrantes, mas indispensáveis- e a eclosão de uma guerra mundial tornaram a tarefa um pesadelo e ao mesmo tempo algo essencial. Ela forneceu a Walter Benjamin um eixo em torno do qual organizaria seu trabalho e sua vida. Além disso, os sucessivos projetos de Benjamin nas cartas a Gershom Scholem, em esboços enviados ao Instituto de Pesquisas Sociais, no plano geral de 1939 eram tão espaçosos, tão fluidos que poderiam incluir projetos paralelos como a antiga idéia da monografia sobre Baudelaire ou a continuação de uma pesquisa sobre literatura francesa moderna, com ênfase especialmente no surrealismo e em Proust. O trabalho passou por diversas fases. O esboço de 1935 prevê seis partes principais. O de 1939 é um pentagrama, moldado no edifício em cinco partes de “Flores do Mal”. A descoberta de Benjamin, por meio de “L’Enfermé”, de Gustave Geffroy, do líder revolucionário utópico Louis-Auguste Blanqui, em 1936-37, modifica profundamente as “Passagens”. A cosmologia mística de Blanqui, em seu “L’Eternité par les Astres”, de 1872, torna-se vital. Benjamin relacionará a terrível visão de Blanqui do universo “como catástrofe permanente” à doutrina de Nietzsche do “eterno retorno” e ao sentimento de vitimização social e política de Baudelaire como o verdadeiro inferno na terra em “As Litanias de Satã”.

Espirais sarcásticas

O sombrio rufo de tambor nas “Passagens” é o das sucessivas derrotas do proletariado em 1830, 1839, 1848 e 1871, às quais Benjamin acrescenta as de 1930 nas democracias ocidentais, assim como no fascismo, no nazismo e no stalinismo (essa é, na verdade, uma leitura bastante parcial do radicalismo utópico de Blanqui). Mas agora, em sua incessante luta para encontrar gêneros narrativos e analíticos adequados, o leviatã muitas vezes encalhado de Benjamin alcançará o “ciclo infernal de repetição”, o terror hipnótico do déjà vu. Como numa prisão de Piranesi, as “arcadas” se transformam em espirais sarcásticas. No entanto, há “Leitmotifs” interessantes nesse labirinto. Benjamin pretende abrir “arcadas” entre a psicologia de massa, tingida de elementos freudianos, uma sociologia materialista, a estética e uma escatologia altamente pessoal, às vezes esotérica. As “Passagens” serão uma análise onírica do grande sono em que o capitalismo mergulhou a consciência coletiva. O mundo de sonhos assim engendrado é cheio de objetos e de promessas libidinosos fetichizados (consumo excessivo e publicidade). Enquanto Aragon e o surrealismo permanecem no “reino de sonhos”, Benjamin busca a “constelação do despertar”. O espaço histórico real, a cartografia do urbanismo, deve substituir a mitologia impressionista de Aragon e Breton. Assim, para Aragon, a “passagem” parisiense, ou galeria, é uma experiência a ser metaforizada; para Benjamin é uma realidade socioeconômica cuja utilização de vidro e metal é ao mesmo tempo decisiva e ambígua. Os objetos devem ser lidos como Freud lê os sonhos. No capitalismo, os próprios objetos são sonhos coletivos que extraem seu poder alucinatório da produção em massa e do merchandising. “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” de Freud foi antecipada pelas sagas visionárias do mercantilismo e da expansão urbana em Balzac e Zola. Essas percepções clarividentes devem ser validadas pelo diagnóstico clássico da reificação e alienação em “História e Consciência de Classe” de Lukács (de maneiras que Scholem considerou simplesmente inadmissíveis, o marxismo de Benjamin era um híbrido inquietante de Lukács e Trótski). Sem dúvida, o mapeamento dos esgotos de Paris feito por Benjamin, dos vastos porões sob a metrópole burguesa, das moradias e sótãos cheios de memórias e brinquedos, tem sua contrapartida na anatomia tríplice da psique definida por Freud. Mas esse mapeamento, vivamente influenciado pelo “flashback” e pelo close-up, pelas técnicas de montagem da fotografia e do cinema, pretende dar uma visão da destruição dos valores pelo capitalismo e pelo mercado de massa. Escrevendo para Scholem, Benjamin descobre uma taquigrafia incisiva: o Hamlet do surrealismo será sucedido por seu Fortinbrás. Os adormecidos devem ser despertados. Essas linhas complexas são tramadas por certos personagens. O catador de trapos -aqui Benjamin recorre a Baudelaire e ao “trapeiro de Paris” de Félix Pyat- é um dos protagonistas. Em suas rondas na madrugada, o trapeiro recolhe os fragmentos descartados, perdidos ou desprezados das esperanças e decepções humanas. “Dire que j’ai tout Paris, là dans cet osier.” (E dizer que tenho Paris inteira aqui neste cesto). Essa recuperação dos detritos da história, como sabemos, é o cerne do programa de Walter Benjamin.

 Figuração do messiânico

Na montagem aparentemente caótica do “chiffonnier” estão os verdadeiros “Denkmaler eines Nicht-mehr-Seins” (“monumentos ao que não é mais”). A ressurreição do efêmero, do desconsiderado, do rejeitado transforma o trapeiro em uma figuração do messiânico. Importância comparável tem o “flâneur”, mais um tema crucial em Baudelaire (Benjamin traduz “A Une Passante”, de Baudelaire). Todos esses temas se reúnem nas frívolas perambulações do “flâneur”, cuja atitude e cujo voyeurismo despreocupado combinam perfeitamente com a geografia das “passagens”. De maneiras relacionadas tanto à coleta do trapeiro quanto à do bibliófilo, Benjamin foi um compilador apaixonado -o “flâneur” subverte o programa utilitário e determinista da cidade. Ele encontra tesouros ou vestígios de ruínas por acaso. As gírias hoje erodidas de “mooning” (divagar) e de “swanning about” (vagar) codificam precisamente os símbolos do peregrino apreciados por Baudelaire e por Benjamin. Eternamente, o “chiffonnier” e o “flâneur” cruzarão em seus caminhos com a prostituta. Ela também é essencial ao elenco. As calçadas são sua nave mercante. Se a prostituta encarna fantasias arquetípicas de eros, de intimidades a serem “colhidas”, é também o agente emblemático na polêmica marxista sobre a escravidão do capitalismo em seu aspecto mais indecente, assim como na narrativa freudiana da angústia e do desejo libidinoso da classe média. A fenomenologia da prostituição no Segundo Império e na belle époque permite que Benjamin entrelace economia, sociologia e psicanálise com um repertório inesgotável de precedentes literários. Especificamente, ela esclarece as compulsões obsessivas, as coleções repetidas: a prostituta coleciona clientes e é colecionada por eles. Nessa encruzilhada, Benjamin se inteira do “erotismo da aquisição e coleção” de Georges Bataille, da paradoxal libertação dos “objetos” (o corpo feminino) da servidão da utilidade. “Escrever história é citá-la”, declara Benjamin, sabendo que em espanhol “citar” significa se “encontrar com”, “marcar um encontro”. Ninguém refletiu de maneira mais aguda sobre a natureza da citação do que Walter Benjamin. Somente Coleridge alcança as arriscadas profundezas da poética do empréstimo de Benjamin (os “Cadernos” de Coleridge são o que temos de mais próximo, em espírito e letra, ao “Trabalho das Passagens”). Anteriormente Benjamin havia sugerido a composição de um livro feito inteiramente de citações. Não no sentido banal, de um dicionário de citações, mas como um mosaico coeso, como uma hélice “recombinadora”, situando cada frase sob uma nova luz.

Documentação e citação

No apreciado modelo de Lichtenberg, Benjamin brincava com a idéia de um livro de aforismos constituído de citações que poderiam ser truncadas, fundidas e até alteradas (tática conhecida por Montaigne). Que demonstração mais articulada do “eterno retorno” -sombras de um futuro Borges- do que a licença para articular verdades frescas e novos insights em palavras já utilizadas com exatamente a mesma aparência externa? Toda documentação é citação. Que outros meios de lembrança possuímos?

Como o conhecemos, “O Trabalho das Passagens” consiste essencialmente em trechos citados de mais de 850 fontes, na maior parte recolhidos na Biblioteca Nacional de Paris. Sua identificação, sua organização em 26 pastas principais, ou “convolutos”, e as notas explicativas são o mérito do esforço prodigioso e da erudição de Rolf Tiedemann. Sua edição surgiu em 1982 como o volume cinco, partes um e dois, da “Suhrkamp Collected Works”.

A prostituição dá poder à industrialização, à tecnocracia de eros; mas também se relaciona à subversão e à paródia dos racionalismos e valores no cassino dos capitalistas-burgueses -o frequentador das prostitutas e o jogador compulsivo se assemelham

Escondido por Bataille durante a ocupação alemã de Paris, o material chegou a Nova York no final de 1947. Apesar de extensa pesquisa textual, ainda há grande imprecisão sobre os planos finais de Benjamin quanto à sequência em que apresentaria o material e sobre sua evidente intenção de continuar a pesquisa. Colocado de maneira simples: ninguém tem autoridade para decretar se Walter Benjamin desejava ou não que seu vasto “canteiro de obras” fosse publicado de maneira semelhante à atual. A pasta “A” reúne material básico sobre as arcadas de Paris, sobre as novas mercearias e lojas de departamentos, sobre as personagens dos vendedores. O “Guide Illustré de Paris” de 1852 serve como fio de Ariadne. As referências são tipicamente variadas: incluem monografias sobre empresas funerárias (um negócio florescente), sobre litografia, os cafés de Paris, a regulamentação oficial dos nomes de produtos, além de Chesterton analisando Dickens, a “Comédia Humana”, os textos de Börne e Baudelaire. Michelet e Heine são homenageados. “A influência dos negócios comerciais em Lautréamont e Rimbaud deve ser examinada!” Benjamin enuncia seu tema subjacente: “Sobre a “intoxicação religiosa das grandes cidades” de Baudelaire. As lojas de departamentos são templos dedicados a essa intoxicação”.

Catacumbas da megalópole

A pasta “C” é uma descida às catacumbas da megalópole, à decomposição que rói seu caminho pela cidade opulenta. Na epígrafe (uma paixão de Benjamin), o Avernus de Virgílio confronta o depoimento de Apollinaire sobre o envelhecimento de Paris. Nessa parte, a própria voz de Benjamin se destaca de modo incomum. O “flâneur” sugere um panorama de toda a cidade, desdobrando-se em ritmo cinematográfico. “Paris foi construída sobre um sistema de cavernas do qual o ruído do metrô e da ferrovia sobe à superfície e ao qual cada ônibus ou caminhão que passa impõe um eco prolongado.” Esse submundo, celebrado em “Os Miseráveis” por Victor Hugo, conecta as grutas e catacumbas da Baixa Idade Média às operações de contrabando dos séculos 16 e 18. Espíritos anárquicos e clandestinos esconderam-se nessa escuridão buliçosa. “Na entrada, uma caixa de correio: última oportunidade de mandar algum sinal para o mundo que se está deixando.” Por meio da biografia “Charles Méryon”, de G. Geffroy, Benjamin acrescenta a seu registro o Homem da Multidão de Poe e alusões ao cavernoso. Os arcos triunfais de Paris -Benjamin brinca com o rito de passagem das pessoas que os atravessam- são edificados sobre um labirinto de espaços subterrâneos. A arrogante cidade desmoronaria para dentro? A pasta “D” narra o tédio, a “noia”, o grande cenário psicológico de Baudelaire, com figurações nietzschianas de “eterno retorno”. Benjamin inclui o fascinante estudo de Jean Tardieu sobre o “Ennui”. Pode ser considerado “uma espécie de breviário para o século 20”. Benjamin classifica o tédio como “a superfície exterior do evento inconsciente”, como o tecido cinza “em que nos envolvemos quando sonhamos”. É o ornamento do dândi, a fonte do frenesi do jogador e da peregrinação do “flâneur”. Na pasta “D” Blanqui torna-se uma presença central. Sua cosmologia de ficção científica deve ser relacionada ao “Zaratustra” de Nietzsche. “A essência do evento mítico é o retorno” -a circularidade carregada tanto de promessa como de terror. A pasta “E” se concentra nas interações entre a brutal modernização de Paris por Haussmann no Segundo Império e as insurreições nas barricadas, que os novos bulevares inibiriam com suas linhas de fogo para a artilharia. A crítica de Engels à tática de barricadas aparece depois de longos trechos do estudo de Georges Laronze sobre o estranho rótulo dado por Haussmann e Fourier à construção de barricadas como “um trabalho não remunerado, mas apaixonado”. Os sangrentos combates de rua durante a guerra civil espanhola prolongam os de Paris de 1830, 1848 e na Comuna. A pasta “H”, sobre o colecionador, é uma peça autobiográfica de grande pungência. Invocando os ensinamentos de Bergson sobre a elasticidade do tempo em relação às percepções individuais dos objetos, Benjamin explica como as coisas parecem atingir, capturar o colecionador. O “colecionador vive como num sonho”. As anotações tornam-se tão densas que só podem esclarecer os conhecedores do idioma de Benjamin: “Matéria destruída: a elevação da mercadoria”. O colecionador separa o objeto de sua matriz funcional, inserindo-o numa colagem; mas seria interessante estudar o bibliófilo “como o único tipo de colecionador que não remove completamente seus tesouros do contexto funcional”. Também se deve notar o desprezo de Marx pela servidão do colecionador à reificação e pela idolatria aos modismos do mercado. Há muito de Benjamin na breve entrada: “Animais (pássaros, formigas), crianças e homens velhos como colecionadores”. No envelope “J” (mas seriam essas rubricas do próprio Benjamin?) estão os tijolos do tão desejado livro sobre Baudelaire. Aqui tudo é virtualmente citação do mestre, de seus contemporâneos e biógrafos anteriores. Nadar, Victor Hugo, os Goncourt, a “opinião muito justa” de Proust sobre a posição de Sainte-Beuve a respeito de Baudelaire aglomeram-se ao redor da figura titular e da “necessidade supra-individual de seu modo de vida”. As pastas “K” e “L” tratam dos sonhos, com componentes extraídos de Freud e Jung. Mas também aparecem arquitetos como Giedion e Le Corbusier. “Arcadas e passagens sem lado de fora como o sonho.” Museus de cera podem ser considerados casas de sonhos “par excellence”. Aqui, um artigo de Ernst Bloch, sempre um assistente importante, embora ambíguo, abre caminho. A pasta “D” contém uma das observações seminais de Benjamin: “Nos campos em que temos interesse, o conhecimento vem apenas em relâmpagos. O texto é o longo trovão que o segue”.

Andorinhas migratórias

A epígrafe da pasta “O” cita o amor como “uma ave de passagem”. Nas galerias que formam o andar superior das arcadas se aninham as mulheres conhecidas como “hirondelles”, as andorinhas migratórias para aquisição sexual. A prostituição dá poder à industrialização, à tecnocracia de eros. Mas também se relaciona à subversão e à paródia dos racionalismos e valores no cassino dos capitalistas-burgueses. O frequentador das prostitutas e o jogador compulsivo se assemelham.

As reflexões pioneiras de Walter Benjamin sobre a fotografia, Daguerre e seu diorama revolucionário estão reunidas na pasta “Q”. Esse material abre diretamente com o tema dos espelhos, cujo gênio tutelar, para Benjamin, é Mallarmé. Os espelhos conjugam os usos evoluídos do vidro, essenciais na construção das “passagens” e transformados em expoentes no Crystal Palace. Novas formas de iluminação artificial (“T”) modificam todo o potencial das imagens e da simulação. A lâmpada a gás transmuta os espaços internos em grutas encantadas. As novas intensidades da iluminação revestem o céu urbano. Benjamin volta-se em seguida para os ensinamentos socioutópicos de Saint-Simon e o desenvolvimento das ferrovias. Novamente, temas cruciais são anotados num código provisório e opaco: a “emancipação da carne” apregoada por B.P. Enfantin, o apóstolo de Saint-Simon, “deve ser comparada às teses de Feuerbach e às visões de Georg Büchner. O materialismo antropológico está incluído no dialético”. Grande parte da esperança radical e utópica do século 19 tinha uma estrutura conspiratória e clandestina. Daí o papel vital das conspirações, da “compagnonnage” proibida e dos grupos anárquicos (pasta “V”). De Babeuf e os “carbonari” a Bakunin e as células niilistas, a necessária modulação dos sonhos em pesadelos ativos falam da violência no subterrâneo. A revolução não-violenta é o ideal de Fourier (“W”). Na lógica perfeita, “o falangismo é uma máquina feita de seres humanos”. O dossiê X é feito de trechos de textos marxistas clássicos, sob a luz condutora do comentário de Karl Korsch. O breve tratamento das bonecas e autômatos que conclui a sequência alfabética é um dos mais sugestivos. As bonecas musicais são as sereias-glórias das arcadas. Sabemos que o autômato de xadrez, com seu jogador anão oculto, é o ícone preferido de Benjamin para a ação teológica inerente à história secular. “O Projeto das Arcadas” não é “legível” num sentido imediato. É uma “loja de curiosidades antigas” (Benjamin cita repetidamente o título de Dickens), uma caverna de tesouros de Aladim num sótão, um quarto de despejo metafísico-histórico e uma casa de bonecas de incrível mobiliário para vasculhar e meditar, exatamente como fazem o “flâneur”, o catador e o colecionador na própria encenação de Benjamin.

Ideal de beleza frígida

De vez em quando, um único aforismo ou um rótulo en passant abrem grandes panoramas. A liquidação da fertilidade na organização tecnológica do mundo torna-se manifesta pelo ideal de beleza frígida do “Jugendstil”: o gênio da alegoria impede que o grande artista (Baudelaire) sucumba ao abismo da mitologia; as revoluções são o ar fresco da cidade pujante, elas abrem e desmitificam seus sonhos estáticos e empacotados; e, sobretudo, “meu pensamento se relaciona à teologia como o mata-borrão se relaciona à tinta. Está saturado dela. Se dependesse do mata-borrão, porém, nada do que está escrito permaneceria” -a máxima de um escritor obcecado por espelhos e por grafologia.

A primeira tradução para inglês, de Howard Eiland e Kevin McLaughlin, segue em geral minuciosamente a edição comentada e revista de Tiedemann. Assim como as notas, as explicações sobre o material colhido preliminarmente e as colaborações editoriais. Mas há problemas. Embora cuidadosa, a tradução para inglês e anglo-americano contraria a própria textura do afresco a-não-ser-concluído de Benjamin. A edição de Benjamin pela Harvard University Press, hoje em progresso monumental, é um empreendimento admiravelmente generoso. Os volumes iniciais superam a erudição oferecida primeiramente pela Suhrkamp. Mas no caso das “Passagens”, um esforço colossal talvez tenha sido mal direcionado. Encerrando essas 1.073 páginas densamente impressas, somos assombrados pelo veredicto de Benjamin sobre Mallarmé, de que “a obra é a máscara mortuária de sua concepção”.


George Steiner é catedrático do Churchill College, em Cambridge, e um dos mais importantes críticos literários vivos, autor, entre outros, de “Extraterritorial” e “Linguagem e Silêncio” (Companhia das Letras). Este texto foi originalmente publicado no “The Times Literary Supplement”. Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0402200103.htm

 

A Dor não nos matará

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Jonathan Franzen

Bom dia, turma de 2011.

Bom dia, parentes e professores. É com grande honra e satisfação que estou aqui hoje.

Vou começar partindo do princípio de que vocês sabiam onde estavam se metendo quando escolheram um escritor para fazer este discurso. Vou fazer o que escritores fazem, que é falar sobre si mesmos, na esperança de que minha experiência tenha alguma ressonância em vocês. Gostaria de abordar o tema do amor e sua relação com minha vida e com o estranho mundo tecnocapitalista que vocês estão herdando.

Há duas semanas, troquei meu BlackBerry Pearl, que já tinha três anos, por um BlackBerry Bold muito mais potente, com uma câmera de cinco megapixels e tecnologia 3G. Nem preciso dizer como fiquei impressionado em verificar quanto a tecnologia avançou em três anos. Mesmo que eu não precisasse telefonar ou mandar e-mail para alguém, queria continuar manuseando meu novo Bold e curtir a maravilhosa nitidez da tela, o toque macio do pequeno trackpad, a incrível velocidade de resposta, a sedutora elegância dos ícones. Em resumo, estava apaixonado por meu novo aparelho. É claro que também adorava meu velho celular; mas, com o passar dos anos, nosso relacionamento perdeu a graça. Surgiram problemas de confiança em minha relação com o Pearl; questões de responsabilidade e de compatibilidade e também, já no fim da nossa história, algumas dúvidas em relação à própria sanidade do meu Pearl, até que finalmente fui obrigado a reconhecer que tinha perdido o interesse naquele relacionamento.

Será que preciso dizer — na falta de uma projeção licenciosa e antropomorfizante segundo a qual meu antigo BlackBerry teria ficado triste com o fim do amor que eu sentia por ele — como nosso relacionamento era absolutamente unilateral? Mas vou dizer mesmo assim. Reparem como a palavra sexy é sempre usada para descrever os modelos mais recentes dos aparelhos eletrônicos; e como as coisas tão legais que hoje podemos fazer com esses aparelhos — ativá-los por meio de comandos de voz ou ampliar a imagem da tela do iPhone usando dois dedos, por exemplo — teriam parecido, para as pessoas de cem anos atrás, verdadeiros truques de mágica; e como falamos em magia quando queremos descrever um relacionamento erótico que esteja funcionando perfeitamente. Deixem-me propor a ideia de que, segundo a lógica do tecnoconsumismo, pela qual os mercados descobrem e respondem àquilo que os consumidores mais desejam, nossa tecnologia se tornou extremamente eficiente para criar produtos que correspondam à nossa fantasia de um relacionamento erótico ideal, no qual o objeto amado se entrega por completo sem exigir nada em troca, instantaneamente, fazendo com que nos sintamos todo-poderosos, e não apronta cenas constrangedoras quando, substituído por um objeto ainda mais sexy, vai parar no fundo de uma gaveta; a ideia de que (para falar de modo mais geral) o objetivo definitivo da tecnologia, a teleologia da techné, seja substituir um mundo natural indiferente a nossos desejos — um mundo de furacões e dificuldades e corações vulneráveis, um mundo de resistance — por outro mundo que responda tão bem a nossos desejos que é como se fosse mera extensão do ser. Deixem-me, finalmente, sugerir que o mundo do tecnoconsumismo é portanto perturbado pelo amor real, o que lhe deixa como única opção de resposta perturbar o amor.

A primeira linha de defesa do mundo tecnoconsumista é transformar seu inimigo em mercadoria. Todos temos um exemplo favorito e sabemos citar os casos mais nauseabundos de mercantilização do amor. Eu mencionaria a indústria do casamento, os comerciais de TV com lindas criancinhas e a prática de dar automóveis como presente de Natal, além da particularmente grotesca equação que compara diamantes a devoção eterna. A mensagem, em cada um dos casos, é que, se amamos alguém, deveríamos comprar alguma coisa.

Um fenômeno relacionado a esse é a transformação, graças ao Facebook, do verbo curtir, que deixa de descrever um estado de espírito e passa a designar um ato que desempenhamos com o mouse: deixa de ser um sentimento e vira uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto da cultura comercial para amar. A característica mais notável de todos os produtos de consumo — sobretudo dos aparelhos eletrônicos e aplicativos — é o fato de terem sido projetados para serem bem curtíveis. Essa é, na verdade, a definição de um produto de consumo — em contraste com o produto, que é apenas aquilo que é e cujos fabricantes não estão preocupados se vamos ou não curtir. Estou pensando nos motores de aviões a jato, nos equipamentos de laboratório, na arte e na literatura em suas manifestações mais sérias.

Mas, se pensarmos nisso em termos humanos e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade de ser curtida, o que temos aí? Temos uma pessoa sem integridade, sem um centro. Em casos mais patológicos, temos um narcisista — alguém incapaz de tolerar que sua autoimagem seja manchada pela possibilidade de não ser curtido e que portanto ou se afasta do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtido.

Se uma pessoa, no entanto, dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é. E, se tiver êxito na tentativa de manipular os outros para que seja curtido, será difícil que, em algum nível, não sinta verdadeiro desprezo por aqueles que caíram em seu embuste. Tais pessoas existem para que nos sintamos bem em relação a nós mesmos, mas que bem podem nos fazer se não as respeitamos? Podemos ficar deprimidos, descambar para o alcoolismo ou, no caso de Donald Trump, concorrer à presidência (e depois desistir).

Os produtos tecnológicos de consumo nunca fariam algo tão desestimulante, pois não são pessoas. São, no entanto, grandes aliados dos narcisistas, a quem facilitam a vida. Além de saírem da fábrica com a ansiedade de ser curtidos, têm incorporada a ansiedade de nos causar boa impressão. Nossas vidas parecem muito mais interessantes quando filtradas pela interface sexy do Facebook. Estrelamos nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e uma máquina confirma a sensação de que estamos no comando. E, já que nossa tecnologia é apenas uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar suas manipulações, como faríamos no caso de pessoas de verdade. É um movimento circular sem fim. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la em nossa lista particular de espelhos elogiosos.

Talvez eu esteja exagerando um pouco. Provavelmente vocês estão cansados de ver as mídias sociais desrespeitadas por cinquentões rabugentos. Meu objetivo aqui é estabelecer um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro. Minha amiga Alice Sebold gosta de falar em “cair no fosso e chafurdar no amor”. Ela tem em mente a sujeira que o amor inevitavelmente espirra no espelho do nosso respeito próprio. O fato é que a tentativa de ser perfeitamente curtível é incompatível com relações amorosas. Mais cedo ou mais tarde, por exemplo, você se verá envolvido numa briga horrível, aos berros, e ouvirá saindo da sua boca palavras de que não gosta, coisas que estilhaçam sua autoimagem de pessoa justa, gentil, bacana, atraente, controlada, divertida e curtível. De repente, surge algo mais real que a curtibilidade e você se vê levando uma vida real. De repente, existe uma escolha verdadeira a ser feita, não uma falsa escolha de consumidor entre BlackBerry e iPhone, mas uma pergunta: Eu amo esta pessoa? E para a outra pessoa: Ela me ama? Não existe a possibilidade de curtir todas as partículas de uma pessoa real. É por isso que um mundo de curtição é, no limite, uma mentira. Mas é possível amar cada partícula de uma pessoa real. É por isso que o amor representa tamanha ameaça existencial à ordem tecnoconsumista: ele denuncia a mentira.

Um dos alentos da praga dos celulares na minha vizinhança em Manhattan é que, entre zumbis enviando torpedos e imbecis combinando festas nas calçadas, às vezes caminho ao lado de alguém que está discutindo de peito aberto com a pessoa que ama. Tenho certeza de que eles prefeririam não discutir em público, mas de qualquer maneira é isso o que está acontecendo e o comportamento deles não é nada legal. Gritam, trocam acusações, protestam, se insultam. Esse é o tipo de coisa que me dá esperança no mundo.

Isso não quer dizer que o amor envolva apenas brigas, ou que pessoas muito autocentradas não sejam capazes de se acusar e se insultar. O amor é uma questão de empatia infinita, nascida de uma revelação do coração de que a outra pessoa é tão real quanto nós. É por isso que o amor, como eu o vejo, é sempre específico. Tentar amar toda a humanidade pode ser um esforço digno, mas ironicamente mantém o foco em nossa individualidade, em nosso próprio bem-estar moral ou espiritual. Ao passo que, para amar uma pessoa específica e identificar-se com suas lutas e alegrias como se fossem suas, é preciso abrir mão de parte de si.

Quando estava quase terminando a faculdade, participei do primeiro seminário da universidade sobre teoria literária e me apaixonei pela estudante mais brilhante do curso. Adoramos a maneira como instantaneamente a teoria literária nos fez sentir poderosos — nesse aspecto a sensação é similar à proporcionada pela moderna tecnologia de consumo — e nos sentimos envaidecidos porque éramos mais sofisticados do que a molecada que ainda estava debruçada nas tediosas análises de texto. Por várias razões teóricas, achamos que seria legal nos casarmos. Minha mãe, que tinha passado vinte anos tentando me tornar uma pessoa totalmente comprometida com o amor, deu uma guinada e começou a achar que eu deveria aproveitar meus vinte anos “livre e solto”, como ela dizia. Naturalmente, como para mim ela estava sempre errada, parti do princípio de que dessa vez também não fosse diferente. Tive que descobrir da maneira mais difícil como esse negócio de compromisso é uma confusão.

A primeira coisa que fizemos foi deixar de lado a teoria. Numa lamentável cena na cama, minha futura mulher me disse algo memorável: “Você não pode me desconstruir e tirar minha roupa ao mesmo tempo”. Passamos um ano em continentes diferentes e logo descobrimos que, embora fosse divertido inserir uns toques teóricos em nossas cartas, não era tão divertido assim lê-las. Mas o que para mim realmente matou a teoria — e começou a me curar, mais genericamente, da minha obsessão pela imagem que eu projetava — foi minha paixão pela ficção. Pode haver uma semelhança superficial entre revisar um texto de ficção e revisar um perfil no Facebook; mas uma página de prosa dispensa aquelas imagens vistosas que favorecem nossa autoimagem. Quem se animar a retribuir o presente que representa a ficção de outra pessoa não poderá ignorar o que há de fraudulento e de segunda mão em sua própria página. Essas páginas também são um espelho, e, se realmente amamos a ficção, descobriremos que as únicas páginas que valem a pena ser guardadas são aquelas que nos refletem como realmente somos.

Há aqui, claro, o risco da rejeição. Podemos de vez em quando suportar o fato de que nem sempre somos curtidos, pois existe uma gama infinita de pessoas que, potencialmente, podem nos curtir. Mas nos expormos por inteiro em nossa individualidade, e não apenas a superfície curtível, e sermos rejeitados, é algo que pode ser insuportavelmente doloroso. Em geral, a perspectiva da dor, da dor da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir. Minha mulher e eu, tendo nos casado jovens demais, abrimos mão de nós mesmos de tal maneira e nos causamos tantos sofrimentos que tínhamos motivos para nos arrependermos de ter embarcado nessa relação.

E no entanto nunca me arrependi. Em primeiro lugar, a luta para honrar nosso compromisso nos tornou o que somos como pessoas; não éramos moléculas de hélio flutuando indolentemente pela vida; nós nos unimos e mudamos. Em segundo lugar — e essa pode ser a principal mensagem para vocês hoje —, a dor fere, mas não mata. Quando levamos em conta a alternativa — um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado pela tecnologia —, a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Passar pela vida e não sofrer é não viver. Dizer a si mesmo “Ah, vou deixar para mais tarde essa história de amor e dor, talvez para depois dos trinta” é como se resignar a passar dez anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser (e emprego a palavra em seu sentido mais pejorativo) um consumidor.

O que disse antes, sobre como o compromisso com algo que amamos nos obriga a encarar quem realmente somos, pode se aplicar particularmente à atividade de escrever ficção, mas é verdade também em relação a qualquer trabalho que façamos com amor. Gostaria de concluir falando sobre um outro amor que tive.

Quando estava na faculdade, e por muitos anos depois, eu curtia o mundo natural. Não amava, mas sem dúvida curtia. A natureza pode mesmo ser algo muito belo. E como a teoria literária havia me instigado e eu estava em busca de coisas no mundo que me parecessem erradas, querendo achar razões para odiar as pessoas responsáveis por tais erros, gravitei naturalmente em direção ao ambientalismo, porque sem dúvida havia muitas coisas erradas com o meio ambiente. E quanto mais eu percebia o que estava errado — a população mundial em explosão, o exagerado consumo de recursos naturais, o aumento da temperatura global, a contaminação dos oceanos, o corte das últimas matas virgens —, mais me enfurecia e odiava as pessoas. Finalmente, mais ou menos na época em que meu casamento estava acabando e eu resolvi que dor era algo bem diferente do que passar o resto da vida me sentindo cada vez mais furioso e infeliz, tomei conscientemente a decisão de parar de me preocupar com o meio ambiente. Não havia nada de significativo que eu pudesse fazer, pessoalmente, para salvar o planeta, e, além disso, queria continuar me dedicando às coisas que amava. Continuei me esforçando para manter baixa minha emissão de carbono, mas esse parecia ser meu limite, se não quisesse de novo sentir raiva e desespero.

Foi então que algo engraçado me aconteceu. É uma longa história, mas, basicamente, apaixonei-me pelos pássaros. Isso não ocorreu sem uma resistência considerável, pois não há nada menos cool que ser um observador de pássaros, e qualquer indício que revele uma paixão verdadeira não é, por definição, cool. Mas, aos poucos, mesmo relutando, fomentei essa paixão e, se metade de uma paixão é obsessão, a outra metade é amor. Sim, admito que mantive meticulosamente uma lista das espécies de pássaros que já tinha visto e me esforcei para conhecer novas espécies. Mas, o que é igualmente importante, sempre que olhava um pássaro, qualquer pássaro, mesmo uma pomba ou um pardal, sentia meu coração se encher de amor. E o amor, como venho tentando dizer a vocês, é onde nossos problemas começam.

Pois agora, não apenas curtindo a natureza, mas amando uma parte específica e vital dela, eu não tinha escolha a não ser voltar a me preocupar com o meio ambiente. As notícias nesse front não tinham melhorado desde a época em que decidi parar de me importar com isso — na realidade, eram bem piores —, mas agora aquelas florestas e pântanos e oceanos ameaçados não eram mais cenários bonitos que eu podia apreciar. Eram o lar dos animais que eu amava. E foi então que veio à tona um curioso paradoxo. A raiva e a dor que eu sentia diante da situação do planeta só aumentaram por causa da minha preocupação com os pássaros silvestres, e no entanto, à medida que me envolvia com a preservação dos pássaros e aprendia sobre as muitas ameaças que eles sofrem, tornou-se estranhamente mais fácil, e não mais difícil, conviver com a raiva, o desespero e a dor.

Como pode acontecer algo assim? Acho que, para começar, meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada de mim, que eu nem sabia existir. Em vez de continuar viajando por aí como cidadão do mundo, curtindo algumas coisas, descurtindo outras e guardando envolvimentos para o futuro, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que eu tinha que aceitar na íntegra ou rejeitar absolutamente. É isso que o amor faz com uma pessoa. Pois a questão fundamental para todos nós é o fato de que vivemos por algum tempo, mas um dia vamos morrer. Esse fato é a verdadeira causa fundamental de toda a nossa raiva, dor e desespero. E podemos optar por fugir desse fato ou, por meio do amor, aprender a aceitá-lo.

Como disse, esse envolvimento com os pássaros foi algo inesperado para mim. Durante a maior parte da minha vida, praticamente nem liguei para animais. Talvez tenha tido azar de me aproximar dos pássaros tão tarde em minha vida, ou talvez tenha tido sorte de que esse envolvimento simplesmente tenha acontecido. Mas, uma vez que sentimos um amor assim, não importa se cedo ou tarde, mudamos nossa relação com o mundo. Eu, por exemplo, tinha abandonado o jornalismo depois de algumas primeiras tentativas, porque o universo dos fatos não me estimulava da mesma maneira que o universo da ficção. Mas depois que minha experiência com os pássaros me ensinou a ir ao encontro da dor, da raiva e da desesperança, e não a me afastar delas, passei a aceitar um novo tipo de trabalho jornalístico. Aquilo que eu mais odiava, em determinado momento, se transformou em algo sobre o que eu queria escrever. Fui a Washington no verão de 2003, quando os republicanos estavam fazendo coisas que me deixavam furioso. Fui à China uns anos atrás porque o que os chineses estavam fazendo com o meio ambiente me tirava o sono. Fui ao Mediterrâneo entrevistar caçadores que estavam matando pássaros migratórios. Em cada um desses casos, ao me encontrar com o inimigo, descobri pessoas que realmente passei a curtir — em alguns casos até a amar. Assessores republicanos engraçados, generosos, brilhantes e alegres. Jovens chineses amantes da natureza, maravilhosos e destemidos. Um legislador italiano louco por armas, de olhos suaves e que citava o defensor dos direitos dos animais, Peter Singer. Em cada caso, a antipatia que sentia facilmente por eles já não tinha mais nada de fácil.

Quando ficamos trancados em nossos quartos, bufando, caçoando ou nos sentindo indiferentes, como fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem desafios impossíveis. Mas quando saímos às ruas e temos relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles. E então quem saberá dizer que rumo a vida tomará?
Obrigado.

Carta de Susan Sontag a Borges

Querido Borges:

0_NSZN9MF-yPVhoOae_Dado que sempre contemplaram sua literatura sob o signo da eternidade, não parece demasiado estranho enviar-lhe uma carta (Borges, faz dez anos). Se alguma vez algum contemporâneo pareceu destinado à imortalidade literária, este era o senhor. O senhor era em grande medida o produto de seu tempo, de sua cultura e, no entanto, sabia como transcender seu tempo, sua cultura, de uma forma que resulta bastante mágica. Isto tinha algo a ver com a abertura e a generosidade, próprias de sua atenção. Era o menos egocêntrico, o mais transparente dos escritores… e também o  mais artístico. Também tinha algo a ver com uma pureza natural de espírito. Ainda que tenha vivido entre nós durante um tempo bastante prolongado, aperfeiçoou as práticas do fastio e da indiferença, que também o converteram num viajante-especialista mental em outras eras. Tinha um sentido do tempo diferente dos demais. As idéias comuns de passado, presente e futuro pareciam banais sob seu olhar. O senhor gostava de dizer que cada momento do tempo contém o passado e o futuro, citando (se bem me lembro) o poeta Browning, que escreveu algo assim como “o presente é o instante no qual o futuro se derruba no passado”. Isso, sem dúvida, era expressão de sua modéstia: seu contentamento em encontrar suas idéias nas idéias de outros escritores.

Essa modéstia se inseria na segurança de sua presença. O senhor era um descobridor de novas alegrias. Um pessimismo tão profundo, tão sereno como o seu, não necessitava da indignação. Melhor fosse inventivo… e o senhor era, sobretudo, inventivo. A serenidade e a transcendência do ser que o senhor encontrou, são para mim exemplares. O senhor demonstrou de que maneira a infelicidade não precisa ser uma necessidade, ainda que a perspicácia e o esclarecimento não nos livrem do terror de tudo isso. Em algum momento o senhor disse que um escritor – acrescentando delicadamente: todas as pessoas – deve pensar que qualquer coisa que lhe suceda, será um recurso. (Estava falando da sua própria cegueira).

O senhor foi um grande recurso para outros escritores. Em 1982 – quer dizer, quatro anos antes de morrer (Borges, faz dez anos!) – eu disse numa entrevista: “Hoje não existe nenhum outro escritor vivente que importe mais a outros escritores que Borges. Muitos diriam que é o maior escritor vivente… São muito poucos escritores de hoje que dele não aprenderam ou o não o imitaram”. E isso continua sendo assim.  Ainda continuamos aprendendo com o senhor. Ainda continuamos a imitá-lo. O senhor ofereceu às pessoas novas maneiras de imaginar, ao mesmo tempo que reiterava, aqui e acolá, nossa dívida com o passado, sobretudo com a  literatura. O senhor disse que devemos à literatura praticamente tudo o que somos e o que fomos. Se os livros desaparecerem, desaparecerão a história e também os seres humanos.Estou convencida de que tem razão. Os livros não são apenas a soma arbitrária de nossos sonhos e de nossa memória. Também nos fornecem o modelo da autotranscendência. Alguns pensam que a leitura é somente uma forma de escapismo: um escape do cotidiano “real” a um mundo imaginário, o mundo dos livros. Os livros são muito mais do que isso.

Lamento ter de dizer-lhe que a sorte do livro jamais esteve tão ameaçada por semelhante decadência. São cada vez mais os que alardeiam o grande projeto contemporâneo da destruição das condições que tornam a leitura capaz de repudiar o livro e seus efeitos. Imagine-se aconchegado na cama ou sentado num canto tranqüilo de uma biblioteca, folheando lentamente às páginas de um livro à luz de uma lâmpada,  e à queima-roupa lhe dizem que daqui para a frente é nos “livros-tela”  que deverá  descarregar qualquer “texto” a pedido, e que poderá mudar  sua aparência, formular perguntas, “interagir” com esse texto. Quando os livros se convertam em “textos”, com os que “interagiremos” segundo os critérios de utilidade, a palavra escrita se terá convertido simplesmente em mais um aspecto de nossas realidades televisivas, regidas pela publicidade. Este é o glorioso futuro que se está criando – e que nos prometem – como algo mais “democrático”. Obviamente o senhor e eu sabemos que isso não significa nada menos que a morte da introspecção… e do livro.

Esses tempos sequer exigem uma grande conflagração. Os bárbaros não têm que queimar os livros. O tigre está na biblioteca. Querido Borges, entenda, por favor, que não me dá prazer queixar-me. Mas: a quem melhor poderiam estar dirigidas estas queixas sobre o destino dos livros – da leitura em si – senão ao senhor? (Borges, faz dez anos!) Tudo o que quero dizer é que sentimos sua falta. Sinto saudades do senhor. O senhor continua fazendo a diferença. Estamos ingressando em uma era estranha, o século XXI. Porá à prova a alma de maneiras inusitadas. Contudo, lhe prometo: entre nós alguns não abandonarão a Grande Biblioteca. E o senhor seguirá sendo nosso exemplo e nosso herói.

Estados Alterados de Consciência

A Neuropsicologia de Como a Percepção no Tempo Modula a Experiência de Si Mesmo. Da Depressão ao Tédio, ao Fluxo Criativo


“O cérebro não representa simplesmente o mundo de forma desencarnada como uma construção intelectual… Nossa mente está vinculada ao corpo. Nós pensamos, sentimos e agimos com nosso corpo no mundo. Toda experiência está embutida neste ser-no-mundo relacionado ao corpo ”.

DE MARIA POPOVA


“Há, nas horas mais sãs, uma consciência, um pensamento que se eleva, independente, retirado de tudo, calmo, como as estrelas, brilhando eterno. Esse é o pensamento da identidade”, escreveu Walt Whitman ao contemplar o paradoxo central do eu. E, no entanto, a característica mais paradoxal da consciência pode ser precisamente a indefinição do eu em uma identidade composta de multidões porosas e em constante mudança. Um século depois de Whitman, o poeta, dramaturgo e romancista austríaco Thomas Bernhard abordou isso em sua excelente meditação sobre o paradoxo da auto-observação: “Se nos observarmos, nunca estamos observando a nós mesmos, mas a outra pessoa. Assim, nunca podemos falar de auto-observação, pois estamos falando como alguém que nunca somos quando não estamos observando a nós mesmos e, portanto, quando nos observamos, nunca estamos observando a pessoa que pretendíamos observar, mas outra pessoa ”.

No meio do caminho entre Whitman e Bernhard, Virginia Woolf destilou o paradoxo em seu problema central: “Não se pode escrever diretamente sobre a alma. Se a olhamos ela desaparece.” Muito à frente da ciência moderna, ela entendeu que nossa experiência de individualidade e da “alma” está largamente enraizada em nossa experiência do tempo – esse eu e o tempo estão entrelaçados em uma elasticidade compartilhada .

Quase um século depois de Woolf e muitas voltas da roda cultural após Whitman, o psicólogo e cronobiólogo alemão Marc Wittmann – um pioneiro na pesquisa sobre a percepção do tempo – retoma essas questões enormes e elementares em Altered States of Consciousness: Experiences Out of Time and Self ( biblioteca pública), traduzido por Philippa Hurd. Entrelaçando fenomenologia da percepção, pesquisa clínica em psiquiatria e neurobiologia, estudos de casos de pacientes, filosofia, literatura e experiências históricas de laboratórios de psicologia ao redor do mundo, Wittmann examina os extremos da consciência – experiências de quase morte, epilepsia, meditação intensiva, uso de psicodélicos, doença mental – para lançar luz sobre os enigmas permanentes do que a consciência é realmente, e como corpo, eu, espaço e tempo se entrelaçam, onde as fronteiras do eu estão localizadas, porque a dissolução dessas fronteiras pode ser a suprema fonte de felicidade e como a consciência do tempo e da consciência do eu co-criam um ao outro para construir a experiência de quem somos.

Discus chronologicus , uma representação alemã do tempo a partir do início dos anos 1720, das Cartografias do Tempo

Em um sentimento que lembra o verso de encerramento do esplêndido “Hino ao Tempo” de Ursula K. Le Guin –

“O tempo é ser e ser / tempo, é tudo uma coisa, o brilho, a visão, o escuro, abundante.”-

Wittmann escreve:

Os estados alterados de consciência muitas vezes andam de mãos dadas com uma percepção alterada do espaço e do tempo… Em última análise, nossa percepção e nossos pensamentos são organizados em termos de espaço e tempo. Estados extraordinários de consciência devem, portanto, afetar também o espaço e o tempo.

Em consonância com a refutação atemporal do tempo de Borges – “O tempo é a substância da qual eu sou feito. O tempo é um rio que me varre, mas eu sou o rio; é um tigre que me destrói, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. ”- Wittmann acrescenta:

O tempo subjetivo e a consciência, o tempo sentido e a experiência do eu estão intimamente relacionados: eu sou meu tempo; Através da minha experiência comigo mesmo, eu alcanço um sentimento de tempo. Se tivermos uma melhor compreensão da experiência subjetiva do tempo, então aspectos importantes da autoconsciência também terão sido melhor compreendidos.

[…]

Em estados extraordinários de consciência – momentos de choque, meditação, experiências místicas súbitas, experiências de quase morte, sob a influência de drogas – a consciência temporal é fundamentalmente alterada. De mãos dadas com isso está uma consciência alterada do espaço e do eu. Nessas circunstâncias extremas, o tempo e os conceitos de espaço e eu são modulados juntos – intensificados ou enfraquecidos juntos. Mas também em situações mais comuns, como o tédio, a experiência do fluxo, a ociosidade, o tempo e o eu são coletivamente alterados.

Pensamentos, pensamentos silenciosos, do Tempo, do Espaço e da Morte. Ilustração de Margaret C. Cook de uma edição de 1913 de Folhas de Erva de Walt Whitman .

Wittmann aponta para uma diferença fundamental entre nosso senso de tempo e nossos outros sentidos, que destaca a centralidade da percepção do tempo para a nossa experiência de individualidade:

O sentido do tempo é “corporificado” de uma maneira mais abrangente do que os outros sentidos. Em última análise, a percepção do tempo não é mediada por um órgão sensorial específico, como acontece no caso dos sentidos da visão, audição, paladar, olfato ou tato. Não há órgão sensorial para o tempo. O tempo subjetivo como um senso de self é uma totalidade física e emocionalmente sentida de todo o nosso ser através do tempo.

E, no entanto, em sua própria pesquisa na Universidade da Califórnia em San Diego, Wittmann localizou, se não um órgão sensorial separado, pelo menos uma região do cérebro em particular, responsável principalmente por nosso senso de tempo. Usando fMRI, ele e sua equipe forneceram a primeira evidência empírica sistemática de que a percepção do tempo é codificada em sinais corporais governados pela ínsula – um fragmento do córtex cerebral dobrado profundamente dentro de cada lobo do cérebro, já implicado por pesquisas anteriores como um locus crucial de consciência envolvida em emoção, autoconsciência e interação social. Com um olho no delicado entrelaçamento entre nossos corpos e nossas mentes , Wittmann escreve:

O cérebro não representa simplesmente o mundo de forma desencarnada, como uma construção intelectual, mas o organismo interage como um todo com o meio ambiente… Nossa mente está vinculada ao corpo. Nós pensamos, sentimos e agimos com nosso corpo no mundo. Toda a experiência está embutida neste ser-no-mundo relacionado ao corpo. Ou, para colocar de outra forma, experiência subjetiva significa viver que está incorporado no ambiente e na interação social com outras pessoas.

[…]

As sensações corporais que estão ligadas à temperatura do corpo íntegro, dor, contrações musculares, contato físico e sinais do intestino – também são um componente integral das emoções e desencadeiam sentimentos positivos ou negativos. Afetos de curto prazo e humor de longa duração são essenciais para a modulação do sentido do tempo.

De fato, algumas das evidências mais convincentes para o self como uma entidade temporal provêm dos vários experimentos e estudos de caso que indicam que pessoas com estados mentais e de humor interrompidos exibem percepção de tempo prejudicada. A depressão, que William Styron descreveu tão memoravelmente como um “confinamento sufocante” em um desespero prolongado, dilata a percepção do tempo em um grau tortuoso. Citando um estudo no qual pacientes hospitalizados por depressão demonstraram forte correlação positiva entre a gravidade de seus sintomas e sua incapacidade de estimar corretamente o tempo, Wittmann escreve:

Pessoas que sofrem de depressão são dessincronizadas temporariamente; sua velocidade interna não corresponde à velocidade do ambiente social. Depressividade e tristeza, expressas em uma auto-imagem negativa, auto-culpabilização e um sentimento de inutilidade, entre outras coisas, andam de mãos dadas com a sensação intensificada e desagradável do tempo passando mais devagar. 

Arte de Bobby Baker, de seu diário visual de doença mental .

Além disso, o tempo se torna arrítmico. Quando intoxicados por um estimulante, pensamentos e ações se aceleram a partir de sua taxa normal, mas o cérebro não codifica essas experiências aceleradas como memórias adequadas. Durante a retirada, acontece o oposto – o tempo se dilata e se expande. O foco no presente desejo pela droga faz com que os sintomas físicos tortuosos pareçam intermináveis ​​e um futuro livre de dependência pareça infinitamente distante. Wittmann resume a cruel armadilha temporal do vício:

Em um estado de dependência, o indivíduo perde sua liberdade temporal – a liberdade de escolher entre oportunidades presentes e futuras.

Na esquizofrenia, a ruptura temporal é ainda mais pronunciada – a unidade contínua como o “eu” é comumente experimentado se quebra em momentos fragmentários que parecem congelar no tempo, impedindo a pessoa de integrar passado, presente e futuro em uma imagem coesa de ser. Refletindo sobre os relatos consistentes dos pacientes sobre o tempo parado, de toda perspectiva futura desaparecendo, e de sentir que eles mesmos estão se dissolvendo, Wittmann escreve:

Na esquizofrenia, a continuidade da experiência temporal e, com ela, a continuidade do eu são perturbadas. É como se o “eu” estivesse preso no presente. O tempo não se move mais e parece parado. Paralisação temporal significa a paralisação do sujeito. Normalmente, nos sentimos como uma unidade de nosso eu. Nosso foco em eventos antecipados inicia nossos preparativos para a ação. A presença mental significa que integramos a experiência passada, presente e antecipada em um todo que é o nosso eu. Como seres conscientes, somos constituídos pela experiência de si nos três modos temporais … Na esquizofrenia … a dinâmica da passagem do tempo, subjacente à subjetividade de toda a nossa experiência, não funciona mais. Porque o tempo subjetivo “fica preso, “A experiência do eu que depende da estrutura temporal dinâmica subjacente é prejudicada. Sem a dinâmica desse fluxo temporal, o “eu” entra em colapso em fragmentos de agora.

Arte de Lisbeth Zwerger para uma edição especial de Alice no País das Maravilhas

Essa interdependência entre nosso senso de tempo e nosso senso de self se manifesta não apenas em estados mentais patológicos no sentido clínico, mas também em nossas patologias existenciais, por assim dizer – nossas experiências de tédio, fluxo criativo e as margens da vigília. Quase um século depois de Bertrand Russell ter admoestado que “uma geração que não pode suportar o tédio será uma geração … em quem todo impulso vital lentamente murcha, como se fossem flores cortadas em um vaso”, escreve Wittmann:

O tédio na verdade significa que nos achamos entediantes. É a auto-referência intensiva: estamos entediados conosco mesmos. Estamos cansados ​​de nós mesmos.

[…]

No tédio somos completamente tempo e completamente vazio interior. Agora sou eu e nada mais – um excesso de ser a si mesmo, na maioria dos casos quando se está sozinho, mas às vezes também é solitário quando se está com os outros.

Se o tempo se desenrola interminavelmente no tédio, ele corre tão rapidamente que desaparece durante o fluxo criativo. Em tal estado, experimenta-se a contrapartida positiva para a dissolução do relato de pacientes com auto-esquizofrenia. Wittmann limita a experiência:

Por um lado, conseguimos algo que será permanente – escrevendo este texto, resolvendo um problema de sintaxe na programação -, mas a nossa vida como um todo quase desapareceu por minutos ou até horas. Estávamos nos concentrando completa e completamente no assunto em questão, mas, ao fazê-lo, não nos notamos: uma perda da experiência do eu e do tempo. Expressá-lo negativamente desta maneira também mostra como a percepção do eu e do tempo são conjuntamente moduladas.

Ilustração de Tom Seidmann-Freud, sobrinha de Sigmund Freud, de um livro filosófico de crianças de 1922, David the Dreamer .

Um dos maiores confrontos cotidianos com o eu em desintegração ocorre nos momentos em que a consciência se esvai em seu manto diurno e no noturno. Mais de um século e meio depois de Nathaniel Hawthorne contemplar como o espaço transcendente entre o sono e a vigília ilumina a temporalidade, Wittmann observa que essas experiências revelam algo além do modelo padrão de memória e narrativa como os blocos de construção do eu – emergindo dessa lacuna entre o sono e a vigília também é um senso do eu como “o mero sentimento de ser”, independente da memória autobiográfica. Ele escreve:

Nos segundos de acordar, como o eu narrativo não está atualizando, a consciência está focada em algo, no entanto: é o eu físico que está no centro da percepção e do pensamento, o que permite a diferenciação entre o eu e o não-eu. Em circunstâncias normais, estamos cientes de nossas experiências, lembranças e expectativas, os objetos de nossa consciência. Abaixo da superfície, no entanto, também temos um eu mínimo, a âncora egocêntrica de todas as experiências que, na situação supramencionada do despertar sem memória, é repentinamente experimentada com muita clareza, à medida que os objetos habituais de nossa consciência, percepções e lembranças estão ausentes. Eu sou jogado de volta em mim mesmo.

Em tal caso, a experiência do eu pode ser entendida como um “pólo do ego”. Meu “ego-sujeito” é focalizado em um “objeto do ego”: eu me percebo. No entanto, há um problema fundamental aqui, pois o objeto do ego é categoricamente diferente do ego-sujeito. Se nos observamos auto-referencialmente – isto é, o ego-sujeito se observa a si mesmo – ele sempre se observa como um objeto do ego.

[…]

Na transição do sono para o despertar, experimentamos os limites do nosso estado habitual de self. Toda vez que acordamos, nos tornamos conscientes de nós mesmos mais uma vez; estamos inseridos em nosso estado de consciência. Mas, em casos isolados, o processo de tornar-se consciente não acontece de maneira perfeita – o ego não se reconhece. Através desses momentos, temos a oportunidade de investigar o enigma da consciência, revelando como o eu consciente depende de fatores ainda a serem determinados, que são constitutivos da autoconsciência.

Ilustração de Lisbeth Zwerger para uma edição especial dos contos de fadas dos irmãos Grimm

Mas em nenhum lugar as fronteiras do self-in-time parecem se dissolver de forma mais palpável do que durante as experiências psicodélicas. Um século depois que o psicólogo e filósofo pioneiro William James primeiro codificou as características típicas dos estados transcendentes, Wittmann se baseia na nova geração de pesquisas sobre como a ciência dos psicodélicos ilumina a consciência e escreve:

Pesquisas científicas sobre os efeitos do LSD e da psilocibina mostraram claramente que os estados de consciência envolvem mudanças marcantes na percepção, nas emoções e nas ideias, e também nos modos como são descritos: o tempo, o espaço e a experiência do self são drasticamente alterados. Essas mudanças são comparáveis ​​apenas a outros estados extremos de consciência, como os que ocorrem nos sonhos, no êxtase místico e religioso, ou nas fases psicóticas agudas no estágio inicial da esquizofrenia. As dimensões da experiência mística incluem a unidade do eu com o universo, a sensação de intemporalidade e ausência de espaço, os sentimentos mais intensos de felicidade e a certeza de experimentar uma verdade sagrada que é, no entanto, indescritível. Este último é o sentimento de olhar por trás do véu da realidade e ver o imutável 

[…]

A pesquisa sobre a experiência mística da desintegração do tempo e do eu sob a influência de alucinógenos é um caminho para entender a consciência humana.

No restante dos fascinantes Altered States of Consciousness , Wittmann prossegue examinando como experiências como meditação e música profundas iluminam a natureza da consciência através das lentes do tempo e do self. Complementa-lo com Kierkegaard em ligar o efêmero e eterno e neurocientista Christof Koch sobre como os qualia de nossa experiência iluminam o mistério central da consciência , então revisitar a exploração anterior de Wittmann de como a interação de espontaneidade e autocontrole medeia nossa capacidade de presença .

Original em inglês

https://www.brainpickings.org/2019/07/19/altered-states-of-consciousness-marc-wittmann/

O Cancelamento Lento do Futuro

Mark Fisher

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‘Não há tempo aqui, não mais’

A imagem final da série de televisão britânica Sapphire e Steel parecia projetada para assombrar as mentes adolescentes. Os dois protagonistas, interpretados por Joanna Lumley e David McCallum, encontram-se no que parece ser um café à beira da estrada dos anos 1940. O rádio está tocando uma simulação de Glenn Miller no estilo Big Band jazz. Outro casal, um homem e uma mulher vestidos com roupas da década de 1940, estão sentados em uma mesa ao lado. A mulher se levanta dizendo: ‘Esta é a armadilha. Isso não é nada e é para sempre’. Ela e seu companheiro desaparecem, deixando contornos espectrais, depois o nada. Pânico em Sapphire e Steel. Eles vasculham os poucos objetos no café, procurando por algo que possam usar para escapar. Não há nada, e quando eles puxam as cortinas, há apenas um vazio negro e estrelado além da janela. O café, parece ser algum tipo de cápsula flutuando no espaço profundo.

Observando esta extraordinária sequência final agora, a justaposição do café com o cosmos provavelmente colocará em mente alguma combinação de Edward Hopper e René Magritte. Nenhuma dessas referências estava disponível para mim na época; na verdade, quando mais tarde encontrei Hopper e Magritte, sem dúvida pensei em Sapphire e Steel. Era agosto de 1982 e eu acabara de completar 15 anos. Mais de 20 anos depois, eu voltaria a ver essas imagens. Nesta ocasião, graças aos VHS, DVDs e YouTube, parecia que praticamente tudo estava disponível para re-assistir. Em condições de recall digital, a perda é perdida.

A passagem de 30 anos apenas fez a série parecer ainda mais estranha do que na época. Isso era ficção científica sem nenhuma das armadilhas tradicionais do gênero, sem naves espaciais, sem armas de raios, sem inimigos antropomórficos: apenas o tecido revelador do corredor do tempo, ao longo do qual entidades malévolas rastejariam, explorando e ampliando lacunas e fissuras no contínuo temporal. Tudo o que sabíamos sobre Sapphire e Steel era que eles eram “detetives” de um tipo peculiar, provavelmente não humanos, enviados de uma misteriosa “agência” para consertar essas quebras no tempo. ‘O básico de Sapphire e Steel ‘ explicou o criador da série, PJ Hammond, ‘veio do meu desejo de escrever uma história de detetive, na qual eu queria incorporar o Tempo. Sempre me interessei pelo Tempo, particularmente pelas ideias de JB Priestley e HG Wells, mas eu queria uma abordagem diferente do assunto. Então, em vez de fazê-los retroceder e avançar no Tempo, seria sobre o Tempo, a Hora invadindo e, tendo estabelecido o precedente, percebi o potencial que isso oferecia a duas pessoas cujo trabalho era impedir as invasões. (Steve O’Brien, “A história por trás da Sapphire e do Steel”, The Fan Can,http://www.thefancan.com/fancandy/features/tvfeatures/steel.html )

Hammond já havia trabalhado como escritor em dramas policiais como Um toque suave e A Caminhada do Caçador e em fantasias infantis como Ás de Paus e Dramarama. Com Sapphire e Steel , ele alcançou uma espécie de marca autoral que nunca mais conseguiria repetir. As condições para esse tipo de transmissão pública visionária desapareceriam durante a década de 1980, quando a mídia britânica foi tomada pelo que outro autor de televisão, Dennis Potter, chamaria de “forças de ocupação” do neoliberalismo. O resultado dessa ocupação é que agora é difícil acreditar que tal programa poderia ter sido transmitido no horário nobre da televisão, ainda menos na então única rede comercial da Grã-Bretanha, a ITV. Havia apenas três canais de televisão na Grã-Bretanha: BBC1, BBC2 e ITV; O Channel 4 faria sua primeira transmissão apenas alguns meses depois.

Em comparação com as expectativas criadas por Star Wars, Sapphire e Steel saiu-se como algo muito barato e divertido. Mesmo em 1982, os efeitos especiais chroma-key não pareciam convincentes. O fato de que os cenários eram mínimos, e o elenco pequeno (a maioria das “tarefas” só apresentava Lumley e McCallum e um casal de outros), davam a impressão de uma produção teatral. No entanto, não havia nada de simplicidade no naturalismo da pia da cozinha; e Sapphire e Steel tinha mais em comum com a opressão enigmática de Harold Pinter, cujas peças eram frequentemente transmitidas pela televisão da BBC durante a década de 1970.

Uma série de coisas sobre a série são particularmente impressionantes do ponto de vista do século XXI. A primeira é a absoluta recusa em “encontrar o público na metade do caminho” da maneira que esperávamos. Isso é parcialmente uma questão conceitual: Sapphire e Steel era enigmático, suas histórias e seu mundo nunca foram totalmente divulgados, e ainda menos explicados. A série foi muito mais próxima de algo como a adaptação da BBC dos romances Smiley de John Le Carré – Tinker Tailor, Soldier Spy – transmitida em 1979; sua sequencia Smiley’s People (que começaria a passar um mês depois do fim de Sapphire e Steel) do que era para Star Wars. Foi também uma questão de teor emocional: a série e os seus dois personagens principais carecem do calor e do humor malicioso que agora é uma característica tão garantida da mídia de entretenimento. O Steel de McCallum tinha a indiferença de um técnico em relação às vidas com as quais ele se envolvia relutantemente; embora ele nunca perdesse seu senso de dever, se mostrava impaciente e impaciente, frequentemente exasperado pela forma como os humanos “bagunçam suas vidas”. Se a Sapphire de Lumley parecia mais simpática, sempre havia a suspeita de que sua aparente afeição em relação aos humanos era algo como a fascinação benigna de um proprietário por seus animaizinhos de estimação. A austeridade emocional que caracterizou a série desde o início assume uma qualidade mais explicitamente pessimista na temporada final. Os paralelismos de Le Carré são reforçados pela forte suspeita de que, assim como Tinker Tailor, Soldier Spy, os personagens principais foram traídos por seu próprio lado.

E então havia a música incidental de Cyril Ornadel. Como Nick Edwards explicou em um post de 2009, esta foi “formada por um pequeno grupo de músicos (predominantemente de cordas) com o uso liberal de tratamentos eletrônicos (modulação de toque, eco / delay) para intensificar o drama e sugestão de horror, e as pistas de Ornadel são muito mais poderosas e evocadoras do que qualquer coisa que você possa ouvir na grande mídia hoje em dia”. (‘Sapphire and Steel’, gutterbreakz.blogspot.co.uk/2009/05/sapphire-steel.html )

Um dos objetivos de Sapphire e Steel era transpor as histórias de fantasmas do contexto vitoriano para lugares contemporâneos, os ainda habitados ou os recentemente abandonados. Na tarefa final, Sapphire e Steel chegam a uma pequena estação de serviço. Logotipos corporativos – Access, 7 Up, Castrol GTX, LV – estão colados nas janelas e nas paredes da garagem e no café adjacente. Esse ‘meio caminho’ é uma versão protótipo do que o antropólogo Marc Augé chamou em um livro de mesmo título de 1995, de ‘não-lugares’ – as zonas genéricas de trânsito (retail parks, aeroportos) que viriam a dominar cada vez mais o mundo, espaços do capitalismo tardio. Na verdade, a modesta estação de serviço em Sapphire and Steel é estranhamente idiossincrática em comparação com os monólitos genéricos clonados que proliferarão além das autoestradas nos próximos 30 anos.

O problema que Sapphire e Steel resolveram, como sempre, tem a ver com o tempo. Na estação de serviço, há uma dilatação temporal de períodos anteriores: imagens e figuras de 1925 e 1948 continuam aparecendo, de modo que, como diz a colega de Sapphire e Steel, “o tempo acabou de se misturar, misturar-se, e não fazer nenhum tipo de sentido”. O anacronismo, a confusão de pequenos períodos de tempo de um para o outro, foi ao longo da série o principal sintoma da quebra da temporalidade. Em uma das primeiras tarefas, Steel reclama que essas anomalias temporais são desencadeadas pela predileção dos seres humanos pela mistura de artefatos de diferentes épocas. Nesta tarefa final, o anacronismo levou à estase: o tempo parou. A estação de serviço se tornou ‘um bolso, um vácuo’. Há ‘ainda tráfego, mas não vai a lugar nenhum’: o som dos carros é aprisionado num zumbido em loop. Silver diz: “não há tempo aqui, não mais”. É como se todo o cenário fosse uma literalização das linhas da obra de Pinter Nenhum homem na Terra: ‘Terra de ninguém, que nunca se move, que nunca muda, que nunca envelhece, que permanece para sempre gelada e silenciosa.’  Hammond disse que ele não pretendia necessariamente que a série terminasse ali. Ele pensou que ela seria paralisada, mas que voltaria em algum momento no futuro. Mas não houve retorno – pelo menos, não na rede de televisão. Em 2004, Sapphire and Steel voltaria para uma série de aventuras em áudio; embora Hammond, McCallum e Lumley não estivessem envolvidos, e nesta ocasião o público não era o público que assistia à televisão, mas o tipo de nicho de interesse especial facilmente encontrado na cultura digital. Eternamente suspensas, para nunca serem libertadas, sua situação – e de fato sua proveniência – nunca será totalmente explicada, a permanência de Sapphire e Steel neste café do nada é profética para uma condição geral: na qual a vida continua, mas o tempo parou.

O lento cancelamento do futuro

A alegação deste livro é que a cultura do século XXI é marcada pelo mesmo anacronismo e inércia que afligiram a Sapphire e Steel em sua aventura final. Mas esta estase foi soterrada, enterrada por trás de um frenesi superficial de “novidade”, de movimento perpétuo. A ‘confusão do tempo’, o envelhecimento de eras anteriores, deixou de ser digna de comentário; agora é tão prevalente que não é mais notada.

Em seu livro Depois do Futuro , Franco “Bifo” Berardi refere-se ao “lento cancelamento do futuro [que] teve início nas décadas de 1970 e 1980”. ‘Mas quando eu digo ‘futuro’, ele explica,

Não estou me referindo à direção do tempo. Estou pensando, antes, na percepção psicológica, que emergiu na situação cultural da modernidade progressista, às expectativas culturais que foram fabricadas durante o longo período da civilização moderna, que atingiu o ápice após a Segunda Guerra Mundial. Essas expectativas foram moldadas nos quadros conceituais  de um desenvolvimento sempre em progresso, embora através de diferentes metodologias: a mitologia Hegel-Marxista de Aufhebung, fundando a nova totalidade do comunismo; a mitologia burguesa de um desenvolvimento linear de bem-estar e democracia; a mitologia tecnocrática do poder abrangente do conhecimento científico; e assim por diante. Minha geração cresceu no auge dessa temporalização mitológica, e é muito difícil, talvez impossível, livrar-se dela e olhar para a realidade sem esse tipo de lente temporal. Jamais poderei viver de acordo com a nova realidade, por mais evidente, inconfundível ou deslumbrante que seja sua tendência social planetária.  (Depois do  Futuro, AK Books, 2011, pp18-19)

Bifo é de uma geração mais velha do que a minha, mas ele e eu estamos aqui do mesmo lado desse corte temporal. Eu também nunca conseguirei me ajustar aos paradoxos dessa nova situação. A tentação imediata aqui é encaixar o que estou dizendo em uma narrativa cansada e familiar: é uma questão de o velho não chegar a um acordo com o novo, dizendo que era melhor em seus dias. No entanto, é justamente esse quadro – com a suposição de que os jovens estão automaticamente à frente da mudança cultural – que agora está desatualizado.

Em vez do já batido mergulho do “novo” no medo e na incompreensão, é mais provável que aqueles cujas expectativas se formaram em uma época anterior, se assustem com a pura persistência de formas reconhecíveis.

Em nenhum lugar isso é mais claro do que na cultura da música popular. Foi através das mutações da música popular que muitos de nós que crescemos nos anos 60, 70 e 80 aprendemos a medir a passagem do tempo cultural.

Mas diante da música do século XXI, é o próprio sentido do choque de futuro que desapareceu. Isso é rapidamente estabelecido através da realização de um simples experimento mental. Imagine qualquer disco lançado nos últimos dois anos sendo transmitido no tempo para, digamos, 1995 e tocado no rádio. É difícil pensar que isso produzirá algum choque   nos ouvintes. Pelo contrário, o que poderia chocar nossa audiência de 1995 seria a própria reconhecibilidade dos sons: a música realmente teria mudado tão pouco nos próximos 17 anos? Compare isso com a rápida mudança de estilos entre os anos 1960 e os anos 90: tocar um álbum de 1993 para alguém em 1989 teria soado como algo tão novo que os desafiaria a repensar o que a música era ou poderia ser. Enquanto a cultura experimental do século XX foi tomada por um delírio recombinatório, que fez com que a novidade estivesse infinitamente disponível, a século 21 é oprimida por uma sensação esmagadora de finitude e exaustão. Não parece o futuro. Ou, alternativamente, não parece que o século 21 tenha começado ainda. Continuamos presos no século 20, assim como Sapphire e Steel foram encarcerados em seu café à beira da estrada.

O lento cancelamento do futuro foi acompanhado por uma deflação de expectativas. Pode haver poucos que acreditem que no próximo ano um recorde tão grande como, digamos, o Fun House dos Stooges, ou o There’s a Riot Goin do Sly, será lançado. Ainda menos esperamos o tipo de ruptura provocada pelos Beatles ou pela disco. A sensação de atraso, de viver depois da corrida do ouro, é tão onipresente quanto negada. Compare o terreno em pousio do momento atual com a fecundidade de períodos anteriores e você será rapidamente acusado de “nostalgia”. Mas a confiança dos artistas atuais em estilos que foram estabelecidos há muito tempo sugere que o momento atual está nas garras de uma  nostalgia formal, da qual mais em breve falaremos.

Não é que nada tenha acontecido no período em que o lento cancelamento do futuro se instalou. Pelo contrário, esses 30 anos foram uma época de mudanças massivas e traumáticas. No Reino Unido, a eleição de Margaret Thatcher colocou fim aos compromissos incômodos do chamado consenso social do pós-guerra. O programa neoliberal de Thatcher na política foi reforçado por uma reestruturação transnacional da economia capitalista. A mudança para o chamado pós-fordismo – com a globalização, a computação onipresente e a precarização do trabalho – resultou em uma transformação completa na forma como o trabalho e o lazer são organizados. Nos últimos 10 a 15 anos, enquanto isso, a Internet e a tecnologia de telecomunicações móveis alteraram a textura da experiência cotidiana para além de qualquer reconhecimento. No entanto, a despeito de tudo isso, há uma sensação crescente de que a cultura perdeu a capacidade de compreender e articular o presente. Ou pode ser que, em um sentido muito importante, não haja mais presente para compreender e articular.

Considere o que acontece com o conceito de música “futurista”. O “futurista” na música há muito tempo deixou de se referir a qualquer futuro que esperamos que seja diferente; Tornou-se um estilo estabelecido, muito parecido com uma fonte tipográfica específica. Convidados a pensar no futurista, ainda teremos algo parecido com a música do Kraftwerk, mesmo que isso seja tão antigo quanto o jazz big band de Glenn Miller, quando o grupo alemão começou a experimentar sintetizadores no início dos anos 70.

Onde está o equivalente do Kraftwerk no século XXI? Se a música do Kraftwerk surgiu de uma intolerância casual com o já estabelecido, então o momento presente é marcado por sua extraordinária acomodação em relação ao passado. Mais do que isso, a própria distinção entre passado e presente está se desfazendo. Em 1981, os anos 60 pareciam muito mais distantes do que hoje. Desde então, o tempo cultural se retraiu e a impressão de desenvolvimento linear deu lugar a uma estranha simultaneidade.

Dois exemplos bastarão para introduzir essa temporalidade peculiar. Quando vi pela primeira vez o vídeo do single ‘I Bet You Look Good on the Dancefloor’ do Arctic Monkeys 2005, eu realmente acreditava que era algum artefato perdido por volta de 1980. Tudo no vídeo – a iluminação, os cortes de cabelo, as roupas – foi montado para dar a impressão de que esta foi uma performance no ‘show de rock sério’ da BBC2 O velho teste do apito cinza . Além disso, não houve discordância entre o olhar e o som. Pelo menos para uma escuta casual, isso poderia facilmente ter sido um grupo pós-punk do início dos anos 80. Certamente, se alguém fizer uma versão do experimento de pensamento que eu descrevi acima, é fácil imaginar ‘Eu Aposto que Você Parece Bem na Pista’ sendo transmitida em The Old Grey Whistle Test (programa britânico de música dos anos 80) em 1980, e não produzindo nenhum sentimento de desorientação na audiência. Como eu, eles podem ter imaginado que as referências a ‘1984’ nas letras se referiam ao futuro.

Deveria haver algo surpreendente sobre isso. Conte 25 anos a partir de 1980, e você está no começo do rock and roll. Um disco que soasse como Buddy Holly ou Elvis em 1980 teria soado fora do tempo. Claro, esses registros foram lançados em 1980, mas eles foram comercializados como retro. Se os Arctic Monkeys não foram posicionados como um grupo “retro”, é em parte porque, em 2005, não havia nenhum “agora” com o qual contrastar sua retrospecção. Nos anos 90, foi possível considerar algo como o revivalismo do Britpop, comparando-o com o experimentalismo que acontecia no underground do dance do Reino Unido ou no R & B dos EUA. Em 2005, as taxas de inovação em ambas as áreas haviam diminuído enormemente. A dance music do Reino Unido continua muito mais vibrante do que o rock, mas as mudanças que acontecem lá são minúsculas, incrementais e detectáveis em grande parte apenas pelos iniciados – não há nenhum deslocamento de sensação como o que você ouviu na mudança de Rave para Jungle e de Jungle para o Grunge nos anos 90. Enquanto escrevo isso, um dos sons dominantes do pop (a música globalizada de clubes que suplantou o R & B) assemelha-se a nada menos que a Eurotrance, um coquetel europeu particularmente insípido dos anos 90 feito de alguns dos componentes mais insossos da House e Techno.

Segundo exemplo. Ouvi pela primeira vez a versão de Valerie de Amy Winehouse enquanto caminhava por um shopping center, talvez o local perfeito para consumi-lo. Até então, eu acreditava que “Valerie” tinha sido tocada pela primeira vez pelos indie plodders, os Zutons. Mas, por um momento, o álbum é um antiquado soul dos anos 1960 e o vocal (que da primeira vez eu não reconheci como Winehouse) me fez revisar temporariamente essa crença: será que essa faixa dos Zutons era uma versão aparentemente ‘mais velha’ desta faixa, que eu não tinha ouvido falar até agora? Naturalmente, não demorou muito para perceber que o som do soul dos anos 60 era na verdade uma simulação; esta era realmente uma cover da faixa dos Zutons, feita no estilo retro em que o produtor do disco, Mark Ronson, se especializou.

As produções de Ronson poderiam ter sido projetadas para ilustrar o que Fredric Jameson chamou de “modo nostálgico”. Jameson identifica essa tendência em seus escritos notavelmente prescientes sobre pós-modernismo, a partir dos anos 80. O que torna “Valerie” e os Arctic Monkeys típicos do retro-moderno pós-modernista é o modo como eles realizam o anacronismo. Embora sejam suficientemente “históricas” – soando para transmitir, em primeiro lugar a sensação de que pertencem ao período em que eles estão -, há algo de errado nelas. As discrepâncias na textura – os resultados do estúdio moderno e das técnicas de gravação – significam que elas não pertencem nem ao presente nem ao passado, mas a alguma era “atemporal” implícita, um eterno dos anos 60 ou um eterno dos anos 80. O som ‘clássico’, seus elementos serenamente liberados das pressões do devir histórico, agora podem ser periodicamente amenizados por novas tecnologias.

É importante ser claro sobre o que Jameson quer dizer com o “modo nostálgico”. Ele não está se referindo à nostalgia psicológica – de fato, o modo nostálgico sobre o qual Jameson teoriza que pode ser dito, impede a nostalgia psicológica, uma vez que surge apenas quando um sentido coerente do tempo histórico se desfaz. O tipo de figura capaz de exibir e expressar um anseio pelo passado pertence, na verdade, a um momento paradigmaticamente modernista – pense, por exemplo, nos engenhosos exercícios de Proust e Joyce na recuperação do tempo perdido. O modo nostálgico de Jameson é melhor entendido em termos de formal  apego às técnicas e fórmulas do passado, consequência de um recuo do desafio modernista de inovar formas culturais adequadas à experiência contemporânea. O exemplo de Jameson é o filme meio esquecido de Lawrence Kasdan Noites Escaldantes (1981), que, embora fosse oficialmente ambientado na década de 1980, parece pertencer aos anos 30. Noites Escaldantes tecnicamente não é um filme de nostalgia ”, escreve Jameson,

pois ocorre em um ambiente contemporâneo, em uma pequena vila da Flórida perto de Miami. Por outro lado, essa contemporaneidade técnica é de fato muito ambígua … Tecnicamente, … seus objetos (seus carros, por exemplo) são produtos da década de 1980, mas tudo no filme conspira para confundir essa referência contemporânea imediata e para possibilitar receber isso também como trabalho nostálgico – como uma narrativa ambientada em algum passado nostálgico indefinível, uma eterna década de 1930, digamos, além da história. Parece-me extremamente sintomático encontrar o próprio estilo dos filmes nostálgicos invadindo e colonizando até mesmo os filmes hoje em dia que têm cenários contemporâneos, como se, por algum motivo, hoje não pudéssemos focar nosso próprio presente, como se tivéssemos nos tornado incapazes de alcançar representações estéticas de nossa própria experiência atual. Mas se é assim, então é uma terrível acusação do próprio capitalismo de consumo – ou, no mínimo, um sintoma alarmante e patológico de uma sociedade que se tornou incapaz de lidar com o tempo e a história. (‘Postmodernism and Consumer Society’ em A Volta Cultural: Escritos Selecionados sobre o Pós-moderno, 1983-1998 , Verso, 1998, pp. 9-10.)

O que impede Noites Escaldantes de ser uma peça de época ou uma imagem nostálgica de qualquer maneira direta, é o seu repúdio a qualquer referência explícita ao passado. O resultado é o anacronismo, e o paradoxo é que essa “indefinição da contemporaneidade oficial”, esse “declínio da historicidade” é cada vez mais típica de nossa experiência com produtos culturais.

Outro dos exemplos de Jameson do modo nostalgia é Guerra nas Estrelas (Star Wars):

uma das experiências culturais mais importantes das gerações que cresceram entre os anos 1930 e 1950 foi a série da tarde de sábado dos vilões alienígenas do tipo Buck Rogers, verdadeiros heróis americanos, com heroínas em perigo, o raio da morte ou a caixa do Juízo Final, e o cliff-hanger no final, cuja solução milagrosa seria presenciada no próximo sábado à tarde. Guerra nas Estrelas reinventa essa experiência na forma de um pastiche; não há sentido para uma paródia de tais séries, já que elas estão extintas há muito tempo. Longe de ser uma sátira sem sentido de tais formas mortas, Guerra nas Estrelas satisfaz um desejo profundo (posso até dizer reprimido?) de experimentá-los novamente: é um objeto complexo no qual, em um primeiro nível, crianças e adolescentes podem tomar as aventuras diretamente, enquanto o público adulto é capaz de gratificar mais profundamente o desejo nostálgico de retornar àquele período anterior e  viver seus estranhos artefatos estéticos antigos uma vez mais. (‘Postmodernism and Consumer Society’, p8)

Não há nostalgia por um período histórico aqui (ou, se existe, é apenas indireto): o anseio sobre o qual Jameson escreve é um anseio por uma forma. Guerra nas Estrelas é um exemplo particularmente ressonante do anacronismo pós-moderno, devido à maneira como utilizou a tecnologia para ofuscar sua forma arcaica. Desprezando suas origens nessas formas de séries de aventuras fabulosas, Guerra nas Estrelas poderia parecer novo porque seus efeitos especiais, então sem precedentes, dependiam da mais recente tecnologia. Se, de maneira paradigmaticamente modernista, o Kraftwerk utilizasse a tecnologia para permitir o surgimento de novas formas, a nostalgia subordinaria a tecnologia à tarefa de reformar a antiga. O efeito foi disfarçar o desaparecimento do futuro como seu oposto.

O futuro não desapareceu da noite para o dia. A frase de Berardi “o lento cancelamento do futuro” é tão apropriada porque capta a maneira gradual, mas implacável, pela qual o futuro foi erodido nos últimos 30 anos. Se o final dos anos 1970 e início dos anos 80 foram o momento em que a crise atual da temporalidade cultural pode ser sentida primeiro, foi apenas durante a primeira década do século XXI que o que Simon Reynolds chama de “dyschronia” tornou-se endêmico. Essa discronia, essa disjunção temporal, deveria parecer estranha, mas a predominância do que Reynolds chama de “retromancia” significa que ela perdeu uma inquietante (unheimlich ) acusação: o anacronismo é agora dado como certo. O pós-modernismo de Jameson – com suas tendências de retrospecção e pastiche – foi naturalizado. Tome alguém como a incrivelmente bem sucedida Adele: embora sua música não seja comercializada como retro, também não há nada que marque seus discos como pertencentes ao século 21. Como tantas produções culturais contemporâneas, as gravações de Adele estão saturadas de um sentimento vago, mas persistente, do passado, sem recordar nenhum momento histórico específico.