Não há progresso sem retrocesso nessa vida; não avançamos segundo progressões fixas, com uma pausa no fim: – através do encantamento inconsciente da infância, da fé imprudente da meninice, da dúvida da adolescência (o destino comum), e então o ceticismo, a descrença, descansando afinal no repouso meditativo do Se da madureza. Mas, mal percorridos, recomeçamos os caminhos; e somos crianças, meninos, homens, e eternos Ses”. – *Moby Dick
(ligeiramente modificado de M A R I A P O P O V A)
“O eu é um estilo de ser, continuamente expandido em um processo vital de definição, afirmação, revisão e crescimento”, escreveu o poeta Robert Penn Warren em seu desafio apaixonado e perspicaz sobre noção de “encontrar a si mesmo” – algo que o psicólogo de Harvard, Daniel Gilbert capturou meio século depois em sua memorável piada sobre os pontos cegos do nosso vir a ser : “Os seres humanos são obras em andamento que erroneamente pensam que estão acabadas”.
Muito tempo antes, Herman Melville (1/08/1819 – 28/09/1891) teceu as eternas questões de ser e de tornar-se no coração de Moby-Dick – o clássico de 1851 que ele escreveu como uma carta de amor de 927 páginas para Nathaniel Hawtorne.
Dois milênios depois de Plutarco se perguntar o que faz de você, você, no experimento Navio de Teseu; duas décadas antes de Nietzsche advertir que “ninguém pode construir a ponte sobre a qual você, e somente você, deve cruzar o rio da vida”, e um século antes de James Baldwin voltar-se para o mar constatando que nada neste mundo é fixo, incluindo a nós mesmos, Melville considera a miríade de voltas e reviravoltas, os saltos para frente e para trás, os desvios e digressões pelos quais a história da vida se conta através de nós. No centro de sua meditação está um aviso: devemos nos libertar da ilusão de que existe um vetor constante de crescimento pessoal, ao longo do qual deslizamos imperturbáveis em direção a uma completude final, onde finalmente nos tornamos plenamente realizados e onde a vida está finalmente, permanentemente acalmada. Ele escreve:
Não há progresso sem retrocesso nessa vida; não avançamos segundo progressões fixas, com uma pausa no fim: – através do encantamento inconsciente da infância, da fé imprudente da meninice, da dúvida da adolescência (o destino comum), e então o ceticismo, a descrença, descansando afinal no repouso meditativo do Se da madureza. Mas, mal percorridos, recomeçamos os caminhos; e somos crianças, meninos, homens, e eternos Ses. Onde fica o último porto, de onde não mais zarparemos?
À medida que o romance se aproxima de sua última pausa, Melville faz seu ponto mais pungente e perspectivo sobre a personalidade – um lembrete de que nós, maravilhosos como somos em nossa individualidade, somos muito menos diferentes uns dos outros do que gostaríamos de acreditar, quando vistos com imparcialidade, com um olhar mais livre da vaidade humana. “Todos os tipos de homens em um só tipo de mundo, bem se vê”, ele se maravilha. Mas então ele se volta para o fato subjacente de que nós – criaturas nascidas auto-referentes e criadas para nos sentirmos únicas – sempre enfrentaremos desconforto:
Senta-te sultanicamente entre as luas de Saturno, e imagina um solitário homem abstrato; e ele te parecerá um prodígio, uma grandeza, um sofrimento. Do mesmo ponto, porém, imagina toda a humanidade, e, na maior parte, ela te parecerá uma turba de desnecessárias duplicatas, a um só tempo contemporâneas e hereditárias.
Na verdade, somos cópias quase idênticas das mesmas necessidades básicas, esperanças, medos e anseios da alma, e feitos da mesma poeira de estrelas. Afinal, é por isso que um romance – ou qualquer obra de arte – que surge da imaginação de um único indivíduo consegue mobilizar e encantar milhões ao longo do tempo e do espaço, através de culturas, séculos e personalidades diferentes.
